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Nem trabalha, nem estuda... |
Há algum tempo, começou a ganhar destaque na grande mídia de direita (desculpe o pleonasmo) notícias sobre uma tal de "Geração nem-nem", ou seja, um grupo de jovens brasileiros que nem trabalham e nem estudam. Segundo a grande mídia, um em cada cinco brasileiros entre 18 e 25 anos estaria nesta situação. Esse grupo, formado por quase dez milhões de pessoas, poderia cair facilmente na criminalidade devido a sua "falta de perspectiva". Outro dado relevante é que a maioria desses "nem-nem" (cerca de 70%) são mulheres devido à maternidade ou aos trabalhos domésticos. Então a preocupação da grande mídia, por conta disso, seria a falta da mão de obra qualificada e a queda do PIB.
Agora pare e pense um pouco: por que raios a grande mídia estaria preocupada com isso? Será que é por causa do PIB mesmo? Será que é porque ela se preocupa com o futuro dos jovens? Vamos refletir um pouco.
O machismo por trás dessa ideia
Ora, todos sabem que a maioria das mulheres que não trabalha de forma remunerada não está aí de pernas para o ar sem fazer nada. Primeiro que ser mãe é uma profissão em tempo integral. Segundo que ser dona de casa dá mais mão de obra que muito trabalho assalariado por aí. E terceiro que muitas mulheres – além de cuidarem da casa e dos filhos – cuidam também dos pais e dos avós. E tudo isso não deixa de ser um "trabalho" só porque não se ganha dinheiro em troca. No trabalho voluntário também não se ganha dinheiro, mas por isso deixa de ser trabalho? Cuidar das pessoas que a gente ama é um dos trabalhos mais nobres que podemos ter na vida. Então o problema já começa aqui, como se um trabalho executado majoritariamente por mulheres não tivesse valor ou não fosse "um trabalho de verdade".
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É assim que pensam que é para as mulheres que "não trabalham"? |
Outro problema gerado indiretamente por essa condenação à geração nem-nem é o preconceito que se cria com relação ao Bolsa Família. Todo mundo sabe que a direita reacionária condena esse programa porque, segundo essa galera, ele só serve para "alimentar a vadiagem", para "pobre fazer filho" e para "tirar do trabalhador para dar para os preguiçosos". Esse pessoal desconsidera que o Bolsa família veio para que as famílias não passem fome e também esquece que ele custa muito pouco para o orçamento do governo. E quem mais se beneficia com este programa são as mulheres que não dependem mais do marido para ter acesso ao dinheiro e ao poder de compra. Só lembrando que boa parte das beneficiadas pelo programa são mães solteiras. O Bolsa Família faz o dinheiro circular e movimentar a economia, ao invés de concentrá-lo nas mãos dos mais ricos. Isso trouxe poder de compra para as mulheres e, de certa forma, alguma independência para elas também.
Pode parecer meio desconexo falar sobre o Bolsa Família neste tópico, mas a verdade é que muitas mulheres que recebem este benefício são tratadas como "parasitas" pelos reacionários, já que, segundo eles, elas "não trabalham". Isso é uma forma sutil de machismo porque além de desvalorizar o trabalho de mãe e doméstica, ainda se cria uma visão errada sobre os programas sociais e sobre as mulheres que não podem trabalhar fora. Não é toda mulher que tem condições de cuidar da casa, dos filhos, dos pais e ainda fazer hora extra.
A moral da história aqui é que há um machismo subliminar ao se mostrar essa Geração nem-nem como se ela fosse formada inteiramente por gente preguiçosa e burra: o que não é verdade. Mas esse nem é o problema maior...
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Adivinhe quem fica rico com o seu trabalho... |
A verdadeira Geração nem-nem
O que a grande mídia não fala, por razões obviamente políticas, é sobre a verdadeira Geração nem-nem. A geração que não trabalha, não estuda e fica cada vez mais rica sem trabalhar é formada pelos parasitas do capitalismo, ou seja: especuladores, rentistas, acionistas, doleiros e políticos corruptos. Muita gente neste país, apesar de nunca ter trabalhado na vida, possui um capital que pouquíssimos trabalhadores conseguirão um dia. A maioria dos nem-nem vivem de herança, investem no tesouro direto, investem em ações e têm uma isenção tributária generosa. E diga-se de passagem, o Brasil é um verdadeiro paraíso para os rentistas. Para ser rentista, ninguém precisa trabalhar ou estudar, basta ter uma caderneta de poupança e muita grana.

Para se ter uma ideia disso, se uma pessoa receber uma herança milionária e colocar R$ 1,6 milhão na poupança, ela vai receber pelo menos 0,5% de juros todo mês. Ou seja, essa pessoa vai ganhar um "salário" de R$ 8.000 todo mês sem fazer porcaria alguma. Ora, quantos e quantos se matam de trabalhar durante 40 horas semanais para obter um salário mínimo de menos de R$ 900 enquanto essa gente ganha muitas vezes mais sem fazer coisa alguma? O que acontece, e que já cansei de repetir, é que há uma distorção muito grande com relação ao valor do trabalho no Brasil.
O que gera riqueza é o trabalho, ponto. Riqueza não nasce do nada e aumenta sozinha com o tempo. Se alguém está rico sem trabalhar, sem produzir nada, é porque esse alguém está parasitando quem está gerando riqueza através do trabalho.
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Rentista ganhando dinheiro |
Respondendo a pergunta lá do início do post:
o que preocupa a grande mídia ao chamar atenção sobre esse assunto é o risco de ter menos gente trabalhando para sustentar os ricos. Simples assim.
Não acho certo que as pessoas fiquem ricas sem trabalhar, mas quem não quiser ou não puder trabalhar de forma "remunerada" deve, sim, receber um subsídio mínimo para não passar fome e ter condições de ter uma vida digna. O problema aqui são as distorções bizarras de vivermos num mundo onde quem trabalha muito ganha pouco e quem não trabalha fica rico.
É óbvio que não estudar e não trabalhar é muito ruim porque ficamos defasados para o mercado de trabalho e temos cada vez menos conhecimento para sair da situação. Viver sem uma perspectiva para o futuro é um tormento para qualquer um. Mas a minha crítica neste post foi com relação à hipocrisia dos que criticam as pessoas da geração nem-nem, mas que, na verdade, são iguais ou piores que elas.