domingo, 30 de abril de 2023

Sonhar é melhor que viver


Já dizia célebre canção Como Nossos Pais – escrita por Belchior e imortalizada na voz de Elis Regina – que "viver é melhor que sonhar". Mas será mesmo que viver é realmente melhor que sonhar? Há muitas formas de se interpretar essa frase, mas para este post, vou focar na visão mais prática e direta: de que sonhar com algo é melhor que vivenciá-lo na prática.

Pode parecer estúpido crer que uma situação imaginária, feérica ou onírica seja melhor que a experiência de vivenciá-la de fato. Afinal de contas, sonhos são fantasia, um devaneio de uma única mente. Já a realidade é algo tangível: algo que "sonhamos" juntos. Claro que o próprio conceito de realidade é muito particular, porque nada garante que este mundo seja de fato real. Mas para o bem da argumentação, vamos considerar que o que vivemos fora de nossas mentes aqui na Terra seja a realidade objetiva. Então, será mesmo que a realidade é algo tão melhor que o sonho?

Acredito que o(a) caro(a) leitor(a) – ou carx leitorx, se preferir – já deva ter perdido o "BV" (Boca Virgem, para quem pensou outra coisa). Todo mundo já beijou na boca, certo? Mas antes do seu primeiro beijo, como você imaginava que ele seria em seus sonhos? Provavelmente, algo melhor do que você vivenciou na realidade. Bom, pelo menos meu primeiro beijo foi horrível. A pessoa que beijei estava com mau hálito e nossos dentes se bateram. Detestei a experiência. O mesmo pode se aplicar a outras coisas. Tudo que criamos uma expectativa boa pode ser desastrosamente pior que o imaginado nos sonhos. Se você sonha em fazer a sua 'viagem dos sonhos' (perdão pela redundância) para Paris, por exemplo, no seu sonho, você se imagina fazendo selfies num belo dia ensolarado na cidade da luz. Mas, na realidade, quando você viaja de fato para lá, acaba ficando preso em um longo engarrafamento, se estressando no despache da bagagem, indo à Torre Eiffel num dia muito chuvoso, tendo uma diarreia horrorosa no meio de uma excursão, sentindo medo de uma multidão fazendo protesto nas ruas e ainda é hostilizado no supermercado por xenófobos locais. Claro que nem tudo é tão trágico, só que em nossos sonhos, nada chega a ser tão terrível. Só idealizamos coisas boas em nossos sonhos. 

É por isso que sonhar é muito melhor que viver. No sonho, nós somos quem queremos ser e não apenas quem podemos ser. É na dimensão dos sonhos que tudo se torna possível por mais absurdo que seja. O nosso sonho pode ser irreal para os outros, mas para quem os vive de forma intensa, ele pode ser tão pleno quanto a própria realidade. Mas o grande barato do sonho é que ele além de não possuir qualquer limite ou regras, também funciona como uma droga, como um ansiolítico. O sonho pode ser usado como fuga da realidade para suportarmos momentos difíceis e dolorosos de nossas vidas. No meu caso, os sonhos mais lindos que tive foram justamente nos momentos em que a realidade era mais dolorosa e opressora. É por isso que pelo menos para mim, sonhar é mais divertido que viver e ainda é de graça.

domingo, 16 de abril de 2023

Achar vida lá fora não é tão fácil assim


Existe um otimismo exagerado nos seres humanos quando o assunto é vida fora da Terra. Sempre achamos que há uma infinidade de civilizações pacíficas querendo dividir o conhecimento conosco pelo cosmo. Esse otimismo vem da nossa própria natureza gregária e do desconforto que o silêncio e que a imensidão dos universo nos causa. O problema é que a realidade pode ser muito diferente daquilo que sonhamos em nossos devaneios saturados de wishful thinking

Ultimamente, tenho visto notícias animadoras para quem está louco para encontrar algum extraterrestrezinho, como aquela de que existem até 6 bilhões de planetas semelhantes à Terra só na nossa galáxia. Só que essas notícias tem um porém: tudo não passa de um chute otimista dos pesquisadores, porque não há evidência alguma de qualquer forma de vida fora da Terra. Não basta apenas termos um planeta rochoso orbitando na zona habitável de sua estrela. Existem muitas e muitas variáveis aí, sendo que muitas delas são absolutamente desconhecidas para nós. Entre essas variáveis, podemos incluir a massa do planeta, seu período orbital, a presença de uma lua massiva na distância certa, a metalicidade do sistema solar, a zona habitável da galáxia, a presença na quantidade certa de água, o tipo de estrela e até a presença de planetas gigantes gasosos em órbitas específicas. Isso porque eu nem considerei outros pontos fundamentais, como extinções em massa e a probabilidade desconhecida da vida surgir espontaneamente. É possível, sim, que estejamos sós no universo, porque não sabemos quase nada sobre esse universo gigantesco que nos cerca. Se a chance da vida surgir for insanamente baixa a ponto de nem todos os planetas do universo serem suficientes para fazer valer a Lei dos Grandes Números, então é praticamente certo que a Terra é a maior exceção probabilística do universo.


Claro que existe o outro lado da questão: e se houver, de fato, vida em outros lugares além do nosso planeta? Neste caso, levando em consideração a escala do cosmos e as distâncias colossais entre as estrelas, é praticamente impossível para qualquer forma de vida do universo encontrar vida em outros planetas fora de seu sistema solar. Viajar pelo cosmo exige uma quantidade inimaginável de energia e tempo. Já entrar em contato com outras civilizações por ondas de rádio é uma tentativa praticamente inútil. Enxergar bioassinaturas em exoplanetas também é uma missão quase impossível devido às distâncias astronômicas. Então mesmo que não estejamos sós, provavelmente nunca saberemos a verdade. A menos, claro, que algum dia a ciência nos ofereça uma maneira de resolver esse questionamento através de métodos ainda não descobertos por nós.