terça-feira, 19 de maio de 2026

Uma religião chamada futebol


Toda essa repercussão e euforia com a convocação do Neymar Jr. para a Copa do Mundo de 2026 mostra duas coisas muito interessantes a respeito do ser humano. A primeira é que os seres humanos sentem uma profunda necessidade de acreditar em algum tipo de messias. E a segunda é que o futebol não é apenas um esporte: é praticamente uma religião. 

Em quase todos os lugares, dentro e fora da internet, as pessoas ainda estão discutindo se o Menino Ney tinha que estar entre os convocados ou não. Quem defende que ele não devia ter sido chamado usa argumentos lógicos sobre sua condição física, sua performance recente no Santos e a ausência de outros grandes jogadores em seu lugar como o João Pedro do Chelsea. Já quem defende a presença do Ney faz isso, na maioria das vezes, por tietagem, por fé ou por saudosismo. Eu concordo que apesar de não ser o mesmo de 2014, o Neymar ainda é um jogador acima da média que, queira ou não, ajuda a manter o time coeso e serve para assumir a responsabilidade pelo grupo. O problema é que uma andorinha só não faz verão. O Neymar, assim como Cristiano Ronaldo e Messi, é um ídolo internacional, garoto propaganda de várias grifes e o último jogador remanescente da velha guarda de craques brasileiros. Mas o cara não faz milagre em uma seleção cheia de problemas, com dificuldades técnicas e táticas e um treinador que não conseguiu ainda arrumar o time. Todo mundo sabe que a nossa seleção não está bem, mas a nossa profunda necessidade de crer em salvadores da pátria (seja na política ou nos esportes) cria a ilusão na maioria de que podemos colocar tudo nas mãos do Neymar e então estará tudo magicamente resolvido, que seremos hexa quase que por ação divina dos deuses do futebol. 

Esse oba-oba com a Copa do Mundo me parece um delírio coletivo que funciona como escapismo para os problemas reais das nossas vidas. Pois mesmo que sejamos hexacampeões, o que isso muda nas nossas vidas cotidianas? Parece que tudo no ser humano gira em torno da profunda necessidade de acreditar em algo que traga algum significado para nossas vidas.

sábado, 2 de maio de 2026

Precisamos abrir os olhos


A rejeição histórica do senado ao advogado geral da União Jorge Messias para a vaga no STF não foi um fato político isolado. O incidente teve várias camadas. Além da indicação do advogado ter frustrado parte da ala progressista por ele ser um homem branco e conservador, tivemos também uma série de articulações nos bastidores envolvendo o presidente do Senado, ministros do STF e a "rasteira" de aliados importantes por falta de blindagem no caso do Banco Master. Logo em seguida, veio a derrubada do veto presidencial ao PL da dosimetria, mostrando que o Governo Federal está com dificuldade de articulação, queda de popularidade e em clara desvantagem numérica no legislativo. Essa turbulência, em parte, é por culpa do próprio governo que tem feito concessão demais ao agronegócio, ao centrão, aos bancos, ao imperialismo e aos corruptos. Isso colocou o governo Lula nas mãos de oligarquias perigosas que nunca se contentam com o muito que ganham. Contudo, é inegável que a desgraça seria menor se a direita bolsonarista e o centrão não fossem maioria no congresso. E é aí que entra a importância da conscientização dos eleitores.

Vivemos em um presidencialismo de coalizão. E este é um sistema de governo que exige alianças e coligações para se obter apoio para governar. Portanto, as pessoas precisam evitar votar em candidatos que não estejam alinhados politicamente entre si. Não faz sentido votar no Lula para presidente e em deputados do centrão na mesma eleição. Isso abre espaço para barganhas, chantagens, lobby e conchavos em nome da estabilidade. O resultado dessa bagunça é essa dificuldade de governabilidade que é comemorada pelos bolsonaristas como se fosse algo bom. No fim das contas, são os corruptos que sempre levam a melhor nesse cenário de instabilidade política, já que eles são oportunistas e se aproveitam das crises para aumentar suas áreas de influência e seus ganhos pessoais ilícitos.

Já ao governo Lula resta o enfrentamento e parar de ceder tanto ao centrão e aos neoliberais que fingem querer conciliação. Precisa indicar uma mulher negra progressista ao STF, não blindar aliados corruptos e ficar do lado certo que é o da sua base eleitoral, porque se for para cair, que seja atirando e defendendo os trabalhadores, minorias e quem o ajudou a se eleger ao invés de ficar nas mãos dos corruptos da velha direita.