"E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou." (Gênesis 1:27)
O trecho acima foi retirado da Bíblia Sagrada e ele refere-se à criação do homem e da mulher. Homem e mulher foram criados ao mesmo tempo, a partir do mesmo pó, em total igualdade. Porém, mais adiante, em Gênesis 2:21, uma outra mulher é criada:
"Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar"
Você não notou algo estranho nessa história? Não percebeu que antes da mulher ser feita da costela de Adão havia uma outra mulher?
Segundo os relatos hebraicos das primeiras escrituras, a primeira mulher a surgir não foi Eva. A primeira mulher que surgiu junto com o homem se chamava
Lilith!
O legado de Lilith
Segundo o Zohar (o livro do Esplendor), o Talmude (o livro dos Hebreus) e o astrólogo Hermínio, Eva não foi a primeira mulher de Adão. A primeira mulher a ser criada por Deus foi uma mulher chamada Lilith. Porém, Lilith foi rejeitada por Adão porque ela exigia a igualdade – e não a submissão feminina perante o homem. Devido às diferenças, Adão e Lilith imediatamente começaram a brigar. Lilith disse:
–"Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que ser dominada por ti? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual."
Quando reclamou de sua condição, ele retrucou:
–"Eu não vou me deitar abaixo de você, apenas por cima. Pois você está apta apenas para estar na posição inferior, enquanto eu sou um ser superior."
Lilith respondeu:
–"Nós somos iguais um ao outro, considerando que ambos fomos criados a partir da terra".
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| Lilith: pintada por John Coller |
Após isso, Deus fez Eva a partir da costela de Adão para que ela fosse submissa a ele.
Lilith seguiu rumo ao Mar Vermelho, uma região habitada por demônios e espíritos malignos, segundo a tradição hebraica. Um lugar profano, o que prova que Lilith se afirmou como um demônio, e é o seu caráter demoníaco que leva a mulher a contrariar o homem e o questionar em seu poder. Desde então, Lilith tornou-se a noiva de Samael, o senhor das forças do mal do Outro Lado.
A lição que tiramos dessa história toda é que
a Bíblia não traz um relato fiel da criação segundo a crença hebraica. Muito provavelmente, a história de Lilith foi omitida da Bíblia para não alimentar a igualdade de direitos entre homens e mulheres, já que as civilizações antigas eram patriarcais e fortemente machistas.
O que se pode tirar dessa história é que Lilith foi a primeira mulher feminista da história (pelo menos segundo os hebreus). E é justamente sobre a importância deste legado que eu pretendo abordar nesta postagem.
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| Segundo a Bíblia, a mulher é o topo da evolução humana, já que ela foi criada por último |
O que é o feminismo?
Segundo a Wikipedia, a definição para o feminismo é:
"Feminismo é um movimento social, filosófico e político que tem como meta direitos equânimes (iguais) e uma vivência humana liberta de padrões opressores baseados em normas de gênero."
Já o dicionário online define feminismo como:
"Doutrina cujos preceitos indicam e defendem a igualdade em todos os aspectos (social, político, econômico) de direitos entre mulheres e homens."
Portanto, o feminismo não é um tipo de sexismo como o machismo, mas sim a luta por direitos iguais, assim como profetizou Lilith. Então se alguém vier com o discurso de que o feminismo é um tipo de "machismo com o sinal trocado", por favor, releia as definições acima.
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| Homens e mulheres evoluíram igualmente |
A queda do sexismo

Uma das coisas mais fantásticas que eu observo no feminismo é justamente a luta pelo fim dos sexismos.
A proposta de igualdade é algo que traz benefícios a todos, inclusive aos homens. É maravilhoso poder viver num mundo onde ninguém precise aguentar um casamento falido por depender do cônjuge, onde ninguém seja obrigado a sustentar uma família sozinho, onde homens e mulheres ganhem salários iguais, onde os homens também possam ficar em casa cuidando dos filhos e das tarefas domésticas, onde as pessoas sejam livres para escolher onde querem trabalhar, onde ninguém seja julgado ou hostilizado por viver sua sexualidade livremente...
A desconstrução do mito do sexo frágil é um benefício para toda a sociedade. Com o fim da superioridade baseada em gêneros, certamente teremos um mundo melhor para todos.
Resgate da autoestima feminina
Pelo fato de vivermos numa sociedade que supervaloriza os feitos masculinos e que monopoliza o
poder nas mãos dos homens, temos, como decorrência disso, mulheres se sentindo inferiores, mulheres se achando menos capazes, mulheres machistas, mulheres com pensamento de que elas são o sexo frágil, etc. Fora toda a repressão à sexualidade feminina, a ausência de direitos iguais e a tal cultura do estupro: cultura essa que, muitas vezes, faz com que as mulheres se sintam culpadas por terem sido estupradas.
Chega a ser assustador o número de mulheres que não denunciam os abusos sexuais pelo fato delas se sentirem as responsáveis pelo próprio estupro. Não podemos em hipótese alguma culpar as vítimas – muito menos em casos de crimes hediondos como o estupro.
É muito revoltante ver mulheres com depressão, traumatizadas e pensando em suicídio devido à baixa autoestima. Se alguém for estúpido o suficiente para não ter percebido ainda, é bom que se diga que mulheres possuem sentimentos, vontades e emoções. Creio que seja necessário um movimento político, artístico e social para mudar esse quadro e salvar o amor próprio de tantas mulheres.
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| Mulheres protestando pelo direito ao voto na França |
A cultura do estupro

Um dos maiores insultos à dignidade humana e à própria justiça é o de culpar uma vítima pela agressão que ela sofreu. Se você acha justo colocar a culpa numa mulher por ela ter sido estuprada, me desculpe, mas você está seriamente doente. Se acha isso exagero, basta ver que a sociedade costuma culpar as mulheres por elas terem "provocado o estupro". E as desculpas para a violência sexual são as mais variadas possíveis: a roupa que a mulher vestia, o fato dela ter entrado em uma rua deserta, o fato dela ser atraente, etc.
Mas o único e verdadeiro causador do estupro foi o próprio estuprador. E se você entende como estupro apenas aqueles casos onde a mulher é ameaçada por um estranho, acho melhor rever os seus conceitos, porque às vezes somos ingênuos sem perceber. O estupro não acontece apenas na rua: ocorre também no trabalho, na faculdade, na escola e, mais frequentemente, em casa. A maioria dos casos de violência sexual ocorre dentro de casa e o pior: provocado por pessoas conhecidas.
O estupro invisível

A sociedade também precisa parar de acobertar os agressores que embriagam ou dopam mulheres para fazer sexo com elas desacordadas, como se isso não fosse estupro.
Qualquer relação sexual que não possua o consentimento pleno de uma das pessoas envolvidas é estupro. Em outros casos há também o ato do homem forçar o sexo com uma mulher desconsiderando os sentimentos e desejos dela. Quantas e quantas vezes mulheres "cedem" aos homens apenas por pressão, insistência ou para não sofrerem represálias? Isso sem mencionar aqueles velhos abusos do dia-a-dia, onde as mulheres muitas vezes precisam aturar assédios, mãos bobas, esfregões maliciosos e até olhares tarados de homens as 'comendo com os olhos'...
Quando as feministas protestam com relação a isso, elas não estão de "mimimi": elas estão falando de algo que gera sofrimento para as mulheres e que muitas vezes passa batido por vivermos numa sociedade machista.
Quando o feminismo vira machismo
Eu vejo por aí muitas críticas de feministas a propagandas, a filmes, a revistas, a desenhos e até a jogos de videogame com aquele velho argumento da "degradação feminina e da objetificação da mulher". Muitas falam que esses protestos têm como objetivo lutar pelo respeito às mulheres. Sério mesmo? Pois bem:
respeito é uma coisa que vem de casa, vem de berço. Não vai ser um filme, ou uma novela, ou um jogo que vai fazer com que as pessoas desrespeitem as mulheres.
Então vamos educar os nossos filhos para que eles aprendam a respeitar a todos igualmente. Arte e o entretenimento machistas só existem porque o machismo existe, e não o contrário.
Já essa ideia da "degradação", a meu ver, é totalmente machista, porque ela tenta impor às mulheres o que elas podem ou não fazer baseada no sexo. Dizer que "mulheres de verdade" não podem fazer isso ou aquilo ou que "homens de verdade" não podem fazer isso ou aquilo é puro sexismo misturado com a velha
falácia do escocês de verdade. Quando alguém diz, por exemplo, que uma mulher não pode usar uma saia curta por esta vestimenta "objetificar a mulher", esse alguém está, na verdade, reafirmando velhos valores machistas que limitam a liberdade feminina. Por isso eu digo:
Nunca diga o que uma mulher não pode fazer! Limitar a liberdade feminina é machismo sim senhor!
Outra coisa que pode passar despercebida é o machismo benevolente, mais conhecido como
cavalheirismo. O cavalheirismo é uma forma de dar um tratamento diferenciado à mulher por ela ser considerada mais frágil ou dependente em relação aos homens. Fazer uma gentileza ou ser cordial é uma coisa, mas agir dessa maneira com uma pessoa só por causa do sexo dela é, sim, um tipo de sexismo.
Críticas ao feminismo

Eu vejo dois grandes problemas com o feminismo. O primeiro deles é a forma ditatorial, quase religiosa, com que algumas fanáticas feministas tentam usar o feminismo para impor as suas convicções pessoais. Não se deve misturar a
misandria ou o
femismo de algumas mulheres, por exemplo, com o feminismo, pois isso acaba confundindo as pessoas e causando aversão ao movimento. E o segundo problema que eu aponto com relação ao feminismo é a mania de misturá-lo com outros movimentos, como, por exemplo, o ateísmo, o socialismo ou o veganismo.
A única coisa que todas as pessoas feministas têm em comum é a luta pela igualdade de gêneros. É possível, por exemplo, ser feminista e ateia, mas também é possível ser feminista e ser cristã. Feminismo não tem nada a ver com religião ou crenças pessoais. Também usar o feminismo como meio de combater o capitalismo, por exemplo, é algo totalmente incoerente, pois atacar o capitalismo não é uma proposta do feminismo.
Esses dois problemas citados acima acabam, na verdade, afastando muitas pessoas do feminismo ou fazendo com que esse movimento seja mal visto.
É preciso haver uma diferença clara entre feminismo e outros movimentos de cunho social e político. Outro possível problema é que muitas feministas tentam lutar por privilégios, e não por igualdade, afinal, por que nenhuma feminista se opõe ao fato das mulheres se aposentarem mais cedo (mesmo quando elas não têm filhos)? E por que muitas feministas não protestam pelo fato de homens receberem penas maiores mesmo cometendo crimes iguais aos das mulheres?
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| Endurecer, sim, mas sem jamais perder a ternura |
A polêmica sobre a prostituição
Tem muitas feministas por aí que tentam impor o seu próprio juízo de valores para censurar ou proibir certas coisas que as ofendem, alegando, equivocadamente, que essas são causas do feminismo. Um exemplo clássico disso a questão da prostituição. Eu vejo muita gente
querendo dar fim a esse trabalho (sim, prostituição é um trabalho) por achar que ele denigre a mulher e
etc. Mas e as mulheres que
escolhem ser prostitutas? Na França, por exemplo, há um embate entre a ministra dos Direitos das Mulheres (Najat Vallaud-Belkacem, que é feminista abolicionista) e o movimento das prostitutas, que dizem: "Nós escolhemos ser prostitutas, não somos vítimas. A gente só quer trabalhar com dignidade e garantir os nossos direitos". Ou seja, a mulher tem que ter autonomia sobre o seu corpo, inclusive para se prostituir, se ela quiser.
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| Lola Benvenutti |
Lembro-me de certa vez quando um bando de machistas e pseudo moralistas xingaram de tudo quanto é coisa degradante a garota de programa Lola Benvenutti apenas pelo fato dela gostar de trabalhar com sexo
, como conta
neste site da G1. Basta ler nos comentários as ofensas gratuitas contra a garota apenas por ela ser uma prostituta. O que o feminismo deveria fazer era justamente lutar contra esse tipo de preconceito, e não contra a prostituição.
Li num
blog qualquer uma reação vinda de uma suposta feminista condenando duramente o deputado federal Jean Wyllys por ele estar tentando regulamentar a prostituição por razões éticas e também para evitar a exploração e o abuso de mulheres. Acho o fim da picada que as próprias mulheres consideram que as prostitutas (e prostitutos) são "depósitos de esperma", "saco de porra" e outros predicados estúpidos usados por aí. Esse tipo de atitude, ao meu ver, não é feminismo. Caso você não tenha entendido a importância do projeto de lei do deputado Jean Wyllys, eu recomendo duas leituras excelentes abaixo:
Lei da Prostituição divide câmara
Projeto de lei que regulariza a prostituição deve ser aprovado até a Copa
E botem uma coisa na cabeça: ser a favor da regulamentação da prostituição não é ser a favor da violência contra a mulher, muito pelo contrário: é uma forma de protegê-las legalmente de cafetões e proxenetas. E a prostituição não degrada mulher alguma, o que degrada a mulher é o preconceito.
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| Isso se parece com um ser humano? |
A polêmica sobre o aborto
É simplesmente inconcebível que o Estado tenha o poder de decidir sobre aquilo que as mulheres podem ou não fazer com os seus próprios corpos. Mais absurdo ainda é esse tal
Estatuto do Nascituro, que dá a um óvulo fecundado mais direitos que a uma mulher. O aborto deve ser uma decisão exclusiva da mulher, não tem que colocar o Estado (ou a Igreja) para tomar esta decisão. O resultado desse Estatuto vai ser um agravamento ainda maior dos problemas ligados à maternidade, que são muitos.
Nenhuma mulher consciente dos seus direitos pode se calar diante deste absurdo. E os argumentos religiosos contra o aborto, além de não possuírem respaldo científico, são baseados em machismos, afinal, as religiões abraâmicas são machistas (no caso do catolicismo, por exemplo, a imensa maioria dos clérigos e cardeais são homens). Neste caso,
não deve ser um bando de homens machistas que devem decidir o que as mulheres podem ou não fazer. Este é um motivo a mais para as mulheres aderirem ao feminismo, pois este movimento é um dos poucos que defende o direito de cada uma ser livre tanto com relação a suas escolhas quanto com relação ao seu próprio corpo.
Sobre esse tema, recomendo as leituras abaixo:
Estatuto do Nascituro: a mulher que se foda (por Clara Averbuck)
Vamos à luta contra o Estatuto do Nascituro
Concluindo
O feminismo, ao contrário do que alguns pensam, não é histeria coletiva: é um meio de tornar o mundo um lugar menos injusto para homens e mulheres. A voz que começou com Lilith não pode se calar diante de preconceitos e imposições moralistas. Aqueles que desejam o fim dos preconceitos e a igualdade de gêneros têm a obrigação de erguer esta bandeira. E isso, claro, também inclui os homens, pois qualquer ser do sexo masculino que não esteja calejado pelo machismo e que tenha o mínimo de empatia vai compreender que esta luta é de todos nós. Não há mais razão para a ditadura do patriarcado existir.