segunda-feira, 19 de agosto de 2024

O fim de uma era da TV brasileira


Acho engraçado quando as pessoas me perguntam o que eu achei da morte do Silvio Santos no último sábado, 17 de agosto. Eu não tenho o que achar nada da morte de ninguém, porque a morte faz parte da vida. É o fim inevitável de todos. O melhor que eu posso fazer sobre a morte é deixar minhas condolências à família e aos amigos do ex-apresentador. O que eu posso opinar a respeito de alguém é apenas sobre sua trajetória de vida. Ou melhor: sobre suas atitudes em vida. 

Quando falamos de Silvio Santos, porém, é preciso diferenciar a figura pública Silvio Santos do empresário, banqueiro e bilionário Senor Abravanel. Silvio Santos era carismático, visionário, divertido, querido, empático: praticamente um membro da família de milhões de brasileiros por ter passado décadas à frente dos programas de auditório dos domingos. Já o empresário Senor Abravanel era um burguês que estava atrás de mais e mais acúmulo de capital que se multiplicou graças à venda de ilusões com o Baú da Felicidade e da Tele Sena. Algo absolutamente normal e esperado dentro do capitalismo. Ainda mais se tratando de alguém que teve uma origem humilde, o que torna sua trajetória de vida ainda mais emblemática para um sistema que possui pouca mobilidade social como o capitalismo financeiro. 

O problema de glorificar a origem simples do Silvio é que muitos são tentados a achar que basta vender muitas bugigangas como autônomo que ficará milionário. Óbvio que as coisas não são assim na prática para 99,9% dos casos. Silvio Santos foi uma exceção total à regra que teve uma sorte descomunal e contatos certos no momento certo de sua vida – além de ter bastante talento. É mais fácil um pobre acertar na Mega Sena do que enriquecer como vendedor ambulante. Mas os capitalistas adoram transformar essa exceção em regra, como se todo camelô fosse se tornar um Jorge Paulo Lemann. 

Tirando esse fator estatístico, o grande problema do Senor Abravanel foi que ele teve a sua emissora, o SBT, como um grande veículo de propaganda dos governos de extrema-direita, seja durante a ditadura civil-militar, seja durante o governo Bolsonaro. Claro que o SBT não podia se opor ao regime militar para não ser fechado como ocorreu com a TV Excelsior, mas a bajulação ao governo era tão descarada que chegava a beirar o ridículo. Além disso, ao flertar com o conservadorismo crescente do final da década passada, Silvio Santos foi se tornando cada vez mais machista e sem noção, como naquelas abordagens de duplo sentido às crianças nos programas de tevê. Mas enfim, há quem defenda tais coisas alegando que era sinal de senilidade. 

Para mim, Silvio Santos, assim como Pelé, não era nem bom e nem mau. Era um ser humano com suas qualidades e defeitos como todos nós e que teve mais acertos que erros em sua vida. Eu gostava muito do programa Silvio Santos quando era criança e da programação infantil do SBT. Mas desde adolescente que perdi o interesse na tevê aberta como um todo e de lá para cá, não acompanhei mais nada além da Casa dos Artistas e do Show do Milhão. E sendo bem honesto, acho que a morte do Silvio Santos marca o fim de uma era na televisão brasileira. O tempo de ouro da TV como conhecemos acabou e ela precisa se reinventar para que possa sobreviver contra a concorrência dos serviços de streaming. Do contrário, a televisão irá se unir ao rádio no museu dos meios de comunicação.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Capitalismo não rima com democracia


Todo mundo já devia saber que capitalismo e democracia não podem coexistir numa mesma frase sem causar um paradoxo. O que existe no capitalismo é uma pseudo democracia semi-representativa que é forçada a atender aos interesses das classes dominantes. A eleição norte-americana, por exemplo, é uma farsa burguesa onde um partido de direita liberal concorre contra partido de direita conservadora. Tanto democratas quanto republicanos vivem de política externa predatória onde guerras, roubos, crises e desigualdades são necessários para manter os EUA como nação mais rica e poderosa do mundo. Mas ninguém se atreve a criticar a eleição americana. A nossa imprensa burguesa só ataca as eleições da China, Rússia, Cuba e Venezuela porque são países que representam uma pedra no caminho do imperialismo estadunidense. Honestamente, não me interessa se as eleições da Venezuela são legítimas ou não. Isso não é problema nosso. O Brasil tem o dever de respeitar as eleições da Venezuela assim como respeita a dos EUA e demais países da panelinha capitalista do G7. 

A narrativa da mídia corporativa – alinhada com os interesses americanos – quer mostrar que Maduro é um "ditador sanguinário" que realizou eleições ilegais com a óbvia intenção de desacreditá-lo para, naturalmente, facilitar sua deposição e entregar o petróleo Venezuelano numa bandeja para as "Sete Irmãs" via políticas neoliberais. Ora, se a Venezuela é uma ditadura, os EUA são uma muito pior onde a classe trabalhadora não tem nenhum representante federal para brigar com a direita. Escolher entre Kamala Harris ou Donald Trump é meio como escolher com qual vaselina o povo vai ser enrabado, ou, numa linguagem mais douta: escolher entre o Alien ou o Predador no filme Alien Versus Predator. Não importa quem vença: todos nós seremos devorados no final.

Democracia só é possível quando o poder real estiver nas mãos na classe trabalhadora. O resto é conversa pra boi dormir.

domingo, 28 de julho de 2024

Só o ecossocialismo pode evitar a nossa extinção


Reverberou bastante nos últimos dias uma suposta notícia divulgada pela Nasa de que várias regiões do Brasil estariam inabitáveis daqui a 50 anos devido a alterações climáticas causada pela espécie humana. Claro que há um exagero nesta notícia, porque ela é um clickbait para nos alertar que o aquecimento global está acelerando de forma mais acentuada do que as projeções nos alertavam. Não haverá inabitabilidade daqui a algumas décadas, mas haverá, contudo, um aumento importante nas temperaturas a ponto de causarem danos irreversíveis na fauna e na flora de várias regiões do mundo – além do aumento dos níveis dos oceanos. Se as coisas continuarem neste ritmo, estaremos rumando para o início da sexta extinção em massa do planeta causada pelo nosso curto e trágico antropoceno. E o único meio de evitar uma tragédia para nós e para o planeta é mudando radicalmente o modo de produção. Temos que substituir o capitalismo por um sistema cuja economia seja baseada em recursos, que seja sustentável. O Projeto Vênus e o Ecossocialismo são os melhores candidatos. Não é mais possível viver como se os recursos naturais fossem infinitos e como se a natureza fosse imune a toda essa agressão que causamos ao planeta.

A cada dia que passa parece ficar mais claro que o grande filtro do paradoxo de Fermi é exatamente essa teimosia em insistir em um modo de produção autodestrutivo que só serve para enriquecer no curto prazo uma maldita casta burguesa que só pensa no agora e neles mesmos. Mas em algum momento chegaremos no ponto de não retorno e, daí para frente, meus nobres amigos, será tarde demais. Aí é adeus espécie humana e seremos mais uma civilização no cosmo sucumbindo ao grande filtro.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

A única forma de acabar com a corrupção


Tem algumas pessoas que alimentam a singela ilusão de que é possível resolver problemas estruturais na sociedade sem provocar mudanças profundas no sistema. Desculpa a sinceridade, mas não há soluções simples para problemas complexos. Não é possível combater a corrupção de forma efetiva enquanto o capitalismo existir. Os moralistas enchem a boca para falar que corrupção se resolve com cadeia para os culpados e privatizações. Mas a verdade é que isso não passa de simplismo. O sistema capitalista nos torna individualistas e egoístas. O capitalismo é uma selva onde é cada um por si, vivendo para si e tentando obter o máximo de vantagens para si. A ética no capitalismo é um conto de fadas burguês para manter as pessoas alienadas e conformadas. Daí que falam muito da tal "reforma política" para acabar com a corrupção. Mas isso não é nada além de um paliativo disfarçado de panaceia. Por mais que as leis sejam duras e o sistema político funcione de forma transparente com os investimentos públicos, sempre haverá meios de burlar a fiscalização e corromper a justiça. Isso porque é o dinheiro quem manda no capitalismo.

Só existe um jeito real de combater a corrupção. E esse único jeito é fazer uma deslavagem cerebral nas pessoas através de um novo modo de produção inclusivo, coletivista e onde o dinheiro como nós conhecemos não exista. Enquanto a gente enxergar os outros como “eles” ao invés de “nós”, nunca nos livraremos da corrupção sistêmica. Vale lembrar que a corrupção não ocorre apenas entre políticos e burgueses. A corrupção faz parte dessa cultura de egoísmo e lucro fomentada pelo capitalismo. Então se você quer realmente acabar com a corrupção, não há outra saída. Temos que superar o capitalismo.

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Um mundo terrível para ser mulher


Não era nenhum exagero quando as feministas do século passado alegavam que as mulheres eram violentadas todos os dias por um estado burguês patriarcal que tratava as pessoas do sexo feminino como meros pedaços de carne a serviço dos homens. Estamos no século XXI e, em mais de meio século, praticamente nada mudou. Homens (brancos, em sua maioria) continuam no topo da cadeia alimentar e fazem de tudo para manter as mulheres longe do real poder e com o mínimo de direitos possíveis. Todas as elites (econômica, política, militar, religiosa e intelectual) são formadas majoritariamente por homens que continuam a legislar sobre as mulheres e a querer mantê-las sobre seu controle. Essas elites castram as mulheres, cerceiam as mulheres, culpam as mulheres, exploram as mulheres e as punem por crimes que o próprio Estado machista inventa. Esse PL 1904/04 idealizado por um macho opressor qualquer de um partido reaça qualquer é uma prova disso. 

Além de todo sistema de opressão que sempre existiu contra as mulheres desde a criação da propriedade privada, agora querem punir uma mulher que aborta como se ela fosse uma assassina. Isso é uma forma categórica de dizer que a vida de um feto vale mais que a vida de uma mulher. Afinal, se homem engravidasse, teríamos micaretas abortistas e até um dia nacional do aborto seguro. Mas como estamos falando de mulheres – e mulheres pobres e pretas em sua maioria – então há a necessidade de mostrar que os dogmas das antigas religiões patriarcais é que prevalecem sobre o que uma mulher pode ou não fazer com o próprio corpo. Enquanto isso, homem que não assume o filho (o que equivale ao "aborto" masculino), acaba saindo impune; homem que estupra uma mulher, se for branco e rico, também sai impune; homem que cria leis para controlar os corpos das mulheres, além de visto como herói, sai impune do mesmo jeito.

Essa desumanização do ser feminino é algo que precisa ser destruído. Até quando vamos viver em um mundo tão perverso e cruel contra as mulheres? É por isso que se existir um sexo forte, com certeza esse é o sexo feminino. Porque viver num mundo cão misógino como o nosso exige muita força, muita coragem e muita luta. Como já dizia um falecido companheiro de guerra: "A única luta que se perde é aquela que se abandona". E ainda bem que a maioria das nossas manas jamais irá recuar um milímetro sequer nessa batalha.