
Num dia desses, presenciei uma cena absolutamente dantesca. Eu estava em um local público vendo na televisão uma repórter perguntar a várias pessoas desempregadas, numa dessas agências de emprego, há quanto tempo elas estavam procurando trabalho e a qual vaga estavam concorrendo. Até aí, tudo bem. Primeiro, foi entrevistado um rapaz jovem à procura de qualquer vaga de nível fundamental, depois foi um ajudante de pedreiro e, por último, foi entrevistado um rapaz pobre que tinha deficiência numa das mãos, mas que mesmo assim procurava por emprego para sustentar a sua família. E a cena grotesca que sucedeu a este último entrevistado me surpreendeu. Um cidadão à minha frente comentou com seu acompanhante em tom de escárnio que "deficiente só serve para roubar vaga de gente 'normal' através de cotas". Como se isso não bastasse, ainda disse que "essas porras (os deficientes) só causam transtorno, porque querem ter mais direitos que todo mundo". E depois saiu fazendo piadas e comparações de mal gosto com Joseph Climber (quadro humorístico do Melhores do Mundo, que conta a história de um deficiente). Nisso, dois rapazes sentados logo atrás deles, com vestimentas típicas de punks, olharam meio torto. Quando os dois capacitistas à frente estavam saindo, um desses dois rapazes punks que estava logo atrás deles imediatamente se aproximou pelas costas do autor dos comentários e, sem que ele visse, simulou uma saudação nazista em tom de deboche, como se estivesse o comparando com Hitler. O colega riu do deboche do amigo punk e ambos também saíram, deixando clara a reprovação àqueles comentários supremacistas.

Diante dessa cena lamentável, eu me questionei como é possível que em pleno século XXI alguém seja capaz de fazer comentários dessa natureza. Um comentário preconceituoso que deixaria Hitler orgulhoso por
se opor a deficientes físicos nunca deveria ser pronunciado em uma sociedade minimamente civilizada. E o mais assustador é que se o portador de deficiência estivesse recebendo pelo INSS ao invés de buscar trabalho, seria xingado por ser "preguiçoso" ou "parasita". E mesmo o sujeito procurando trabalho por uma questão de dignidade para sustentar a sua família, também acaba sendo ofendido do mesmo jeito. Fica claro que esse tipo de comentário é capacitismo puro, típico de uma sociedade que desumaniza todos aqueles que são diferentes. Ao invés de nos solidarizarmos, zombamos e condenamos portadores de deficiência. Este é um ato de desumanidade extremo.
Enfim, parece que ser de extrema-direita, neonazista, capacitista e eugenista não é mais motivo de vergonha para os reaças brasileiros. Ficar se escondendo atrás de avatares anônimos na web virou coisa do passado, já que agora eles podem falar publicamente e sem o menor pudor suas asneiras. Sentir ódio e repulsa de minorias é o primeiro passo para a selvageria total. Espero, honestamente, que as pessoas procurem sempre repudiar este tipo de preconceito para que ele não vire uma bola de neve e acabe terminando do jeito que terminou para Adolf Hitler.