quarta-feira, 31 de março de 2021

A peste, a fome e a guerra


Estamos vivendo, neste momento, um pesadelo caótico – uma pandemia apocalíptica – como exaustivamente alertou a OMS no ano passado caso medidas contundentes não fossem tomadas. Se a realidade brasileira já era dura sem pandemia, agora então foi que a vaca foi pro brejo. Uma quantidade aterradora de brasileiros está sem emprego, sem renda, sem vacina, sem comida, sem remédios, sem oxigênio, sem água potável e até sem luz elétrica como consequência direta dessa pandemia. Os que ainda têm moradia, ou estão a beira de um ataque de nervos devido ao isolamento social, ou estão ameaçando colapsar ainda mais o sistema de saúde completamente saturado de profissionais extenuados, sobrecarregados e desesperados com a situação alarmante das UTIs. Já as pessoas que não têm sequer um teto para morar estão ao relento, expostas ao frio, à violência, à humilhação e passando todo tipo de necessidade. 

Mas a tragédia não para por aí. O custo de vida subiu, os preços dos produtos de primeira necessidade dispararam, aumentou o número de pedintes nas ruas, estão ocorrendo mais furtos, mais assaltos, mais saques... Com um auxílio emergencial pífio, o trabalhador não tem escolha a não ser encarar o abatedouro, seja se aglomerando nos transportes públicos lotados para ir ao trabalho, seja se submetendo a subempregos arriscados em condições insalubres. Já os que não conseguem um trabalho estão dependendo desesperadamente da solidariedade alheia para não morrer de fome junto com sua família inteira. Enquanto isso, nos cemitérios, faltam caixões para enterrar tantos mortos que sequer podem receber um funeral ou uma última despedida dos entes queridos. É uma tragédia. E não foi por falta de aviso.

Além da peste e da fome, agora há também o risco de uma rebelião das polícias militares instigadas pelo bolsonarismo contra os governadores, acentuando o caos. Temos ainda a chance de mais um Golpe de Estado, chance de mais repressão, de mais violência e de mais pessoas dos grupos de vulnerabilidade social sendo assassinadas. É o cenário perfeito para o apocalipse. Se sobrevivermos a esse massacre, teremos que ensinar para as futuras gerações que o autoritarismo, o negacionismo e o extremismo são a receita perfeita para o nosso aniquilamento. A ciência, a democracia e o diálogo são pilares que devemos defender pelo resto de nossas vidas. Só assim teremos alguma chance de perdurar como civilização neste pequeno pedaço de rocha cósmica chamado Terra. Se é pela dor que vem as maiores lições, então que esta seja a maior de todas. Afinal de contas, a maior lição que a vida pode nos dar é aquela que mais teimamos em não aprender. 

Força, Brasil.

terça-feira, 30 de março de 2021

Golpe furado


Há algo grande e incomum ocorrendo nos bastidores da política brasileira. E a ponta do iceberg dessa crise política está se mostrando através da troca de vários ministros, da demissão simultânea dos três chefes das FFAA, da ameaça de intervenção dos Estados Unidos na nossa crise pandêmica, do assassinato do policial militar que surtou em Salvador, dos protestos explodindo em SP, da véspera de completar 57 primaveras do Golpe de 64... A impressão que dá é que, aproveitando essa turbulência toda, Bolsonaro tentou colocar em prática o seu velho sonho de ser ditador do Brasil – mas houve resistência entre seus (ex) aliados. A ideia de tentar impor um estado de sítio para manter esse verdadeiro genocídio diante da Covid-19 não parece ter ganho simpatia entre o alto comando do braço armado da República. Tudo indica que o negacionista mor do Palácio do Planalto foi para o tudo ou nada na tentativa de ter o controle absoluto e quebrou a cara. Por enquanto, pelo menos.

Esse cenário me lembrou daquela didática partida de blitz entre os campeões de xadrez Judit Polgar e Magnus Carlsen que ocorreu em 2014. Se fôssemos comparar de forma pedagógica com aquela partida, é como se o Bolsonaro tivesse jogado com a agressividade da Judit Polgar pelo controle do centro do tabuleiro e caído diante da sua própria imprudência de tentar um arremate a todo custo. A diferença aqui é que se Bolsonaro fosse um enxadrista, ele não teria a mesma elegância da Judit e nem abandonaria a partida quando sua iniciativa fosse perdida. Ele seguiria jogando até cair diante de um inevitável xeque-mate.

sábado, 27 de março de 2021

Lula será candidato?


Não é de hoje que parte da elite brasileira demonstra insatisfação com o atual presidente. Banqueiros, empresários, latifundiários, juízes, políticos graúdos e generais não estão lá muito satisfeitos com a forma com a qual o inominável está conduzindo o país durante a pandemia. E isso não é porque a nossa elite do atraso está preocupada com o povo, com os trabalhadores ou com os mais vulneráveis que estão morrendo feito moscas com a Covid-19. A preocupação da elite é que a água já está batendo no bumbum dela. Hospitais que tradicionalmente atendem aos membros da alta burguesia já estão ficando estupidamente lotados e sem vagas nas UTIs. Um ricaço – assim como qualquer outra pessoa – não quer correr o risco de ficar sem vaga na UTI caso se contamine com o coronavírus. Outro problema grave é que os lucros dos plutocratas não têm aumentado tanto quanto eles gostariam. Se o Bolsomorte fosse menos bronco e incompetente, a economia não estaria em frangalhos e o projeto neoliberal poderia ser passado adiante sem tantos problemas. A verdade é que, por conta disso, o Bolsomonstro agora virou refém do "centrão". Se não agradar a ala fisiológica do parlamento, ele ficará isolado com seus milicianos, com seu gado puxa-saco e com os generais mais fiéis. Um isolamento político fará o genocida presidente 'sangrar' até chegar hemorrágico na eleição de 2022. Diante desse quadro, algumas pessoas podem estar se perguntando: "Mas e o Lula? Ele recuperou os direitos políticos. Será que ele será o candidato que vencerá o bolsonarismo em 2022?" Sendo curto e grosso, eu apostaria que NÃO.

Ora, o Golpe de 2016 não foi dado para que Lula voltasse 6 anos depois e desfizesse todas as reformas neoliberais. O retorno do PT não tem sentido numa conjuntura de ruptura institucional. O que as elites querem é um presidente NEOLIBERAL que se comporte de forma minimamente civilizada. E pode ter certeza que tentarão de tudo, de Huck a Mandetta, indo do PSDB ao PSB, nem que tenham que apoiar um social-liberal como o Ciro Gomes. Mas apoiar candidato petista não me parece racional ou plausível, a menos que seja para golpeá-lo em seguida e usar o seu vice como títere na base da chantagem, como foi no caso da chapa Dilma/Temer.

Mas enfim, como ainda há muita água para passar por baixo da ponte e os candidatos da direita tradicional estão muito enfraquecidos, pode ser que até lá a elite concorde que Lula é menos pior que Bolsonaro e apoie um possível governo petista desde que ele ocorra com várias restrições e seja controlado a rédeas curtas. Ora, todos sabem que o Lula é um conciliador. Vai que cola de novo aquele lema "Lulinha paz e amor". Enfim, os próximos capítulos desse House of Cards brasileiro serão decisivos. Quem viver, verá.

quinta-feira, 25 de março de 2021

E caiu mais um herói da direita


Existem muitos brasileiros que se esquivam de maneira tragicômica daquela pergunta: "você é de esquerda ou de direita?", dando uma resposta ambígua que entrega instantaneamente de que lado eles estão. Por serem despolitizados (ou isentões), eles respondem que se consideram "apartidários", "que não existe esquerda e direita" ou, simplesmente, repetem o velho clichê "meu partido é o Brasil". Mas, na verdade, a gente sabe por vivência que essa turminha que dá essas respostas é, sim, de direita, seja por osmose (indução), seja por vergonha de admitir que é de direita. Ainda assim, em caso de dúvida diante desses isentões, uma maneira certeira de saber de que lado do espectro político eles estão é bisbilhotar o histórico de suas publicações nas redes sociais e ver quem foram seus heróis ou suas referências nacionais na construção de um país melhor. E aí, camarada, é tiro e queda. 

A gente reconhece as pessoas direitoides/conservadoras pelos ídolos caídos delas: Japonês da Federal (preso na Operação Sucuri), Eduardo somos milhões de Cunha (preso por corrupção), Aécio Neves (desmoralizado pelas delações de Sérgio Machado) e agora o ex-juiz Sérgio Moro. Desses todos, quem sofreu a maior queda foi o Sérgio Moro, que foi tratado como herói contra a corrupção, como semideus contra a impunidade, que posou ao lado de gente graúda, que ganhou cargo de ministro da justiça no governo Bozo e que agora teve suas patifarias trazidas a público via Intercept/Operação Spoofing e amargou a suspeição no caso Lula. Bem feito. Mas, na minha humilde opinião, o marreco de Maringá tinha que ser preso por crime de lesa-pátria por contribuir para a destruição de nossas empreiteiras e por ter ajudado Bolsomorte a se eleger. Foi realmente ridículo ver aquela prisão absurda do Lula ser tratada como ato de heroísmo e ainda ser reiterada vergonhosamente (e por unanimidade) pelo TRF-4 e pelos vogons ministros do STJ. Mas como mentira tem pernas curtas, ficou claro que toda a encenação da Operação Lava Jato não passou de um ato político para beneficiar Moro e procuradores da força-tarefa em seus planos maquiavélicos de poder.

Se essa tendência continuar, o próximo herói da direita a cair será o genocida aspirante a Hades que nunca teve compostura ou competência para ocupar o cargo em que está. E pela altura que ele subiu, a maior entre todos os "heróis" caídos até agora, a queda dele será a mais homérica. Afinal, quanto maior a altura, maior o tombo. Quando será que a direita criará vergonha na cara e terá ao menos UM herói decente? Ou será que é impossível ser herói e de direita, já que nela só tem vilões? Enfim, triste o país que precisa de heróis...

quarta-feira, 24 de março de 2021

300 mil mortos


É complicado escolher as palavras certas para se usar neste momento tão trágico da nossa história. Não existe na cronologia brasileira uma tragédia tão grande que tenha matado tantas pessoas em tão pouco tempo como agora. Em um dia morrem mais brasileiros de Covid-19 do que em todas as tragédias da nossa história. Para se ter uma ideia, o coronavírus matou em um ano dez vezes mais que a própria gripe espanhola. Nem mesmo as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki mataram tantas pessoas. Em alguns municípios brasileiros já estão faltando até caixões para enterrar tantos mortos. Viramos uma grande necrópole. Eu não preciso nem dizer quem é o principal responsável por essa tragédia e que a imprensa podre que apoiou essa besta-fera também tem sua parcela de culpa no cartório. O que eu me questiono é: se tivéssemos outro presidente, seja ele Lula, Ciro, Haddad, Alckmin ou até Meireles, será que esse verdadeiro genocídio estaria ocorrendo? Fica aí a reflexão para quem ainda não se arrependeu de ter digitado 17 nas urnas em 2018.