terça-feira, 13 de março de 2018

O terraplanismo foi a ideia mais idiota que eu já vi


Eu sei que ninguém aguenta mais esse assunto, mas é preciso por um ponto final nessa teoria conspiratória desmiolada que defende que "a Terra é plana". Na manhã de hoje, eu assisti a dois vídeos no YouTube onde os seus autores traziam "provas irrefutáveis" de que a Terra é plana. Diante das supostas "provas", só existem duas reações possíveis para quem já passou pelo ensino fundamental e ainda bate bem do juízo: ou você ri, ou você chora. São tantos erros absurdos, tantas falácias e tantas alegações sem fundamento que chega a causar revolta. As tais "evidências" da Terra plana são todas risíveis. Aquele experimento podre de usar uma régua alinhada com a linha do horizonte para provar que a curva da Terra não existe é de uma burrice chocante. Ora, como um planeta de mais de 12 mil km de diâmetro pode se limitar à projeção de uma escala tão pequena quanto a de uma régua? O sujeito não pára para pensar que 9 km ou 10 km não representam uma distância suficientemente grande para se projetar a curvatura do planeta?
Outra prova tosquíssima foi de que um helicóptero numa Terra esférica só precisaria levantar voo em linha reta e ficar suspenso no ar, parado, para a Terra girar e assim ele chegar a outro ponto do planeta sem sair do lugar. Isso não faz o menor sentido porque o helicóptero está preso ao planeta através da gravidade – gravidade esta que os terraplanistas negam que exista, já que a Terra plana estaria sempre subindo no espaço para "simular" a gravidade. Enfim, os terraplanistas teriam que reescrever todas as leis da física para tornar a hipótese deles apresentável. Eles teriam que comprovar através de cálculos que força é essa que joga a Terra para cima no espaço sideral e "simula" a gravidade.

"Prova" de que a Terra é plana.

Outro problema da Terra plana é que o sol não poderia estar na distância próxima que eles dizem que está do nosso planeta, pois dessa forma ele pulverizaria a Terra. Os ventos solares, a alta temperatura da fusão nuclear e a radiação de um pequeno sol próximo matariam qualquer coisa viva. Além disso, seria impossível que a lua e o sol orbitassem um planeta plano, como defendem os terraplanistas.
Isso sem falar de muitos outros fenômenos que os terraplanistas não explicam, tais como os eclipses lunares, a força de maré, os solstícios e equinócios, a velocidade orbital dos satélites, a velocidade de escape, a paralaxe estelar e o fato de que todos os outros corpos celestes são esféricos.
Você por acaso já viu algum eclipse assim?

Enfim, a hipótese da Terra plana é só um meio de dar mais visualizações e dinheiro para meia dúzia de malucos que faturam com teorias conspiratórias toscas e sem noção. Essa discussão sobre o formato da Terra não existe no meio acadêmico. Somente a internet é capaz de tolerar ideias tão idiotas e absurdas quanto essa.

Se você acha que a Terra é plana, por favor, volte para o ensino fundamental.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Por que a maioria não se rebela contra a opressão?


Na manhã de hoje, eu estive pensando sobre um fato curioso. O fato é que boa parte dos grupos oprimidos e socialmente dominados têm duas características bem peculiares. A primeira é que muitos deles são maioria numérica. E a segunda é que eles também são mais fortes que os seus opressores. Veja o caso das mulheres, por exemplo. Elas são mais fortes que os homens por viverem mais, por enfrentarem a misoginia e o feminicídio, por serem geneticamente mais resistentes a doenças hereditárias e por sobreviverem a jornadas duplas. Mas a nossa cultura sexista ensina o contrário: que elas são o "sexo frágil". Outro grupo majoritário reprimido socialmente foi o de negros e pardos. Eles tiveram sua cultura, sua religião e até o seu fenótipo hostilizados e marginalizados pela sociedade racista que os coloca, frequentemente, como menos capazes que os brancos. E o grupo mais numeroso, o dos trabalhadores, aceita viver uma vida miserável apenas para sustentar os luxos dos parasitas que controlam o poder, que os roubam e os exploram. Daí eu me perguntei por que esses grupos oprimidos não se revoltam e fazem uma revolução. Após pensar um pouquinho, a resposta para essa indagação veio de modo preciso: eles não se revoltam porque não conhecem a força que têm. O que os mantém alienados sobre a própria força é justamente a prisão da ignorância perpetuada por séculos pelas classes dominantes.

Mulheres, negros e trabalhadores são 99% da população

Como explicou o vlogueiro Leandro Zayd em um dos seus melhores vídeos, as piores prisões são as invisíveis. Mulheres, negros e proletários sempre sofreram lavagem cerebral tanto da mídia quanto da cultura para acreditarem que são fracos, pouco inteligentes e dependentes. O racismo, o machismo e a inferiorizarão da classe proletária são armas poderosas de controle social. Quem acredita que é incapaz nunca terá coragem ou organização para se rebelar contra um sistema de opressão.
A solução para isso, como todos sabem, passa pela educação. É preciso uma pedagogia crítica que ensine as pessoas a questionarem e entenderem o seu lugar no mundo e na sociedade. Enquanto isso não ocorre de fato, o trabalho então recai sobre nós, os produtores de conteúdo para a web. Nós, blogueiros, vlogueiros e formadores de opinião em geral temos o dever de informar para as pessoas a verdadeira força que elas têm. Não é justo que a gente continue a viver num mundo onde existam exploradores e explorados, opressores e oprimidos, e ganhadores e perdedores. Temos que aprender a nos ver como uma só espécie, como irmãos, como filhos do mesmo cosmo feitos de poeira de estrelas.
Enquanto não houver uma equidade entre os seres humanos, não poderemos silenciar. Todos nós temos o poder. Todos nós temos totais de condições de mudar o mundo se nos unirmos. Essa mudança depende apenas de nós.

domingo, 11 de março de 2018

O que as estrelas ensinam para nós?


Há algumas semanas atrás, eu estava jogando o belo game Life is Strange Before The Storm e me deparei com uma cena bonita e filosófica envolvendo as protagonistas. Após descobrir uma verdade dolorosa sobre seu passado e sobre sua vida, a jovem Rachel Amber deitou-se em sua cama e fez uma reflexão interessante ao lado da sua amiga Chloe Price. Ela disse, olhando para o planetário improvisado em seu quarto, que muitas das estrelas que vemos no céu já não existem mais. As luzes das estrelas às vezes levam milhões (ou até bilhões) de anos para chegarem aos nossos olhos. E muitas dessas estrelas morreram antes da luz delas chegar ao nosso planeta. Ou seja: quando olhamos para uma estrela, estamos olhando não como ela é hoje, mas sim como ela era há milhares ou milhões de anos atrás. É como se o céu fosse uma máquina do tempo que nos permite ver um passado muito longínquo.

Rachel e Chloe em um momento filosófico.

Foi nessa vibe que eu me lembrei do Hubble deep field (campo profundo do Hubble), que foi, nada menos, que a fotografia mais importante já tirada pela humanidade. Esta imagem do Hubble mostra o ponto mais distante do universo já visto pela nossa espécie, mostrando galáxias que estão a bilhões de anos-luz de distância da Terra. As luzes dessas galáxias levaram impressionantes 13 bilhões de anos até chegarem às lentes do Hubble – o que significa, consequentemente, que a imagem mostra como o universo era há 13 bilhões de anos atrás. Levando em consideração que a Terra surgiu há 4,5 bilhões de anos, a imagem do Hubble mostra exatamente como universo estava há 8,5 bilhões de anos antes da Terra existir. E isso tem dois significados muito mais profundos do que podemos imaginar à primeira vista.


O primeiro significado é que como disse a Rachel Amber, o que vemos ao olhar para o céu é na, verdade, uma ilusão: uma mentira, pois aquelas estrelas não estão ali de verdade. Porém, olhando do ponto de vista da Chloe – que perdeu o pai, mas sonha de forma bastante enigmática com ele – as estrelas podem até estar mortas, mas o que importa é que elas estão vivas para nós. As pessoas aqui na Terra basearam-se ao longo da história em estrelas mortas que nos parecem vivas para tomar suas decisões. Da astrologia até a agricultura (que dependia da astronomia), as estrelas, mesmo não existindo mais, serviram para influenciar as nossa vidas e as nossas escolhas desde tempos remotos. Isso significa que quando lidamos com perdas, especialmente de entes queridos, temos que pensar sobre o quão vivas estas pessoas ainda permanecem dentro de nós. Eu mesmo, por exemplo, perdi o meu pai há três anos. Porém, as palavras sábias dele ecoam até hoje na minha memória e influenciam muitas das minhas decisões. O meu pai é como uma estrela que se foi, mas o seu brilho chega até mim como se ele ainda estivesse ao meu lado. Então, de certa forma, as pessoas são como estrelas, porque mesmo quando elas deixam de existir, elas continuam vivas dentro de nós, guiando nossos passos e nossas decisões. O que importa não é o que existe, mas o que sentimos que existe dentro de nós. Isso serve, de certa forma, para fortalecer a fé e a espiritualidade de muitas pessoas. E também serve para que muitos ateus desenvolvam uma visão menos radical e negativa da fé alheia, pois essa fé tem um efeito placebo psicossomático que pode ser benéfico para muitos religiosos.

Campo profundo do Hubble.

O segundo significado, por outro lado, é que o universo jogou na nossa cara que não há entidades sobrenaturais (deuses) criando coisa alguma no universo. Vimos como o universo era 8,5 bilhões de anos antes da Terra surgir e não havia qualquer divindade construindo planetas e estrelas. O que criou as estrelas e as galáxias foram as forças da natureza. A gravidade foi que formou as galáxias, estrelas e planetas. Não há qualquer sinal de deuses construindo o que quer que seja. O universo funciona sozinho a partir de suas próprias leis. Isso sem mencionar, claro, os discos protoplanetários, que são os planetas em formação graças a ação da gravidade. Todos os planetas se formam e se formaram desta maneira, inclusive a Terra. Somos frutos de um acaso cósmico. Isso mostra que nós somos um subproduto dos 13,7 bilhões de anos de evolução cósmica. Somos parte do universo e de sua história. Foi o universo que nos criou, e não ditadores celestiais que querem controlar as vidas das pessoas.


É por tudo isso que eu amo as estrelas: porque elas são minhas maiores professoras.

sábado, 10 de março de 2018

Armar a população não é a solução


Para variar, hoje estou sem tempo e ao mesmo tempo não quero deixar o blog parado com tantos temas importantes para serem abordados. Então o que tem para hoje é uma rápida reflexão sobre as soluções mágicas, violentas e imediatistas que a direita costuma propor para resolver o problema da violência no Brasil. Entre as "soluções" apresentadas pela direita estão leis mais severas, pena de morte, redução da maioridade penal e armar todo mundo. Vendo essas propostas toscas, eu costumo sentir um orgulho ainda maior de ser um "esquerdopata". Isso porque a esquerda propões mudanças estruturais para resolver o problema da violência. Essas mudanças estruturais estão principalmente na redução das desigualdades, na implementação de uma educação realmente libertadora, numa polícia mais bem preparada e no desmantelo do tráfico através da legalização de algumas drogas e no real combate aos grandes traficantes.



Sobre a liberação das armas letais tão defendida pela direita, o que mais me admira é que a maioria desses defensores do armamento são cristãos. E é curioso ver como muitos cristãos sofrem de um duplipensar bizarro, porque seguem uma Bíblia que diz para amar até os inimigos e querem armas para matá-los sob o discurso fascistoide de que "bandido bom é bandido morto". Nessas horas, como Rosa Luxemburgo denunciou há mais de um século, os comunistas são mais cristãos que os próprios cristãos. E durma com um paradoxo desse!


sexta-feira, 9 de março de 2018

Nem Lula, nem Bolsonaro


Embora Lula e Bolsonaro estejam salvando a democracia, é bastante improvável que tenhamos os dois disputando as eleições presidenciais deste ano. Isso porque Lula certamente será descartado pela burguesia, seja através da sua prisão ou de uma determinação proibitiva qualquer da justiça. Já Bolsonaro não deve disputar porque ele não ganha de ninguém no segundo turno e sua candidatura é muito fraca devido ao partido pequeno e às suas alianças inexpressivas. Bolsonaro não vai trocar o certo pelo duvidoso, pois deixar de se reeleger deputado para correr o risco de perder na disputa presidencial não é uma atitude inteligente para quem faz carreira política. 

O resultado disso é que teremos mais uma vez PT versus PSDB no segundo turno de 2018. Do lado tucano, a candidatura de Geraldo Alckmin parece começar a ganhar solidez, apesar de nomes como Dória e Huck não estarem totalmente descartados. Já do lado do PT, nomes como Haddad, Jaques Wagner e Lindemberg estão sendo cogitados. Porém, pela atual conjuntura e pelo antipetismo virulento que ainda domina parte da população e da imprensa oligárquica, é possível que o PT faça algo inédito em sua história: apoie um candidato de outro partido. Candidatos como Guilherme Boulos, Manuela d'Ávila e até Ciro Gomes podem receber apoio do PT. Diante do quadro atual, creio que Ciro Gomes deva ser o plano B do lado progressista. Apesar de não contar com o apoio da grande massa, de ser mal visto por uma parte da esquerda e de ser abominado pelos coxinhas, Ciro me parece a opção menos pior numa eleição sem Lula.

Será que o futuro do Brasil estará nas mãos de um desses dois?

Se o candidato apoiado pelo PT conseguir relevância eleitoral, é possível que Bolsonaro apoie o PSDB mais uma vez ou até mesmo tente concorrer como vice na chapa tucana. Uma chapa Alckmin/Bolsonaro e outra com Ciro/Marina ou Ciro/Manuela seria o grande duelo entre progressistas e neoliberais. É por isso que cada vez mais estou achando que a grande disputa de 2018 será entre Ciro e Alckmin. E numa situação dessa, Ciro teria mais chances que Alckmin por representar a mudança e por ter aderido a um centrismo ambíguo que o deixa teoricamente fora da briga entre esquerda e direita. Os tucanos, queira ou não, estão na base aliada do governo Temer, estão envolvidos em vários escândalos de corrupção e estão sem moral depois de apoiar um impeachment golpe que deixou o Brasil em frangalhos. Nem com apoio de Bolsonaro os tucanos devem se salvar dessa, afinal, para muitos eleitores do Bolsonaro, o PSDB é um partido "esquerdista". Portanto, é bom Ciro já ir se preparando para os desafios que irá enfrentar como chefe de Estado desse Brasil caótico que estamos vivendo.