quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

A tal crise dos 18 anos


Antes da famigerada crise dos 30 anos há outra crise muito pior que é a crise dos 18. Isso porque 18 anos de idade é uma idade horrível onde parece que nada dá certo e você ainda não manda na sua vida. Você não sabe quem você é e nem para onde vai. Você não é mais uma criança e também não é um adulto propriamente dito, mas ao mesmo tempo ainda é um misto dos dois. É muita pressão na nossa cabeça nessa fase com relação a trabalho, faculdade, primeira habilitação, tirar documentação, alistamento militar, filiação partidária, direcionamento espiritual, relacionamentos afetivos, responsabilidades que aumentam... 

Quando eu completei 18 anos, lembro que eu estava numa deprê horrorosa devido a uma crise existencial, minha saúde estava ruim, não tinha amigos, não tinha namorada, não tinha carro, não sabia dirigir, não tinha trabalho, não tinha renda, não tinha nenhum instrumento musical, não tinha celular, não tinha videogame ou computador e ainda era um sujeito completamente tímido e introvertido. Meus refúgios eram os desenhos à mão que eu fazia com os quadrinhos da Sociedade do Rock, as estórias fantásticas que eu escrevia em meus cadernos e as músicas que eu escutava num discman velho. Enfim, eu não tinha nenhuma boa perspectiva do futuro. Até hoje eu não sei dizer direito como superei meus 18 anos. Só sei que muitos desses problemas continuaram por anos e alguns continuam até hoje (falta de um carro, por exemplo. Se bem que isso não é exatamente um problema para mim). Acho que o segredo para ter sobrevivido a tudo isso foi não ter me desesperado, ter acreditado que superaria os problemas e ter saído da minha zona de conforto. Com o passar do tempo, a gente vai ficando mais calejado, mais maduro e mais perspicaz. A gente passa a entender melhor como a vida funciona. Graças a isso, a gente consegue enxergar soluções que a impulsividade e a inexperiência não permitiam antes. E talvez seja justamente esse o grande problema de ser ter 18 anos.

A dica que eu dou hoje aos meus 38 anos para alguém que acabou de fazer 18 é de não perder as esperanças, de focar num objetivo de cada vez com metas e prazos definidos e de ter a certeza que nunca mais você terá as chances de começar bem em algo como está tendo agora. Começar a fazer algo novo depois dos 30, por exemplo, é muito mais difícil e complicado, especialmente se for algo que demande esforço físico, como um esporte, por exemplo. Depois dos 29 você já estará "velho demais" para passar em certos concursos públicos, para iniciar uma carreira em algum esporte e até para conseguir emprego em algumas áreas. Mesmo que no começo as coisas saiam erradas, é melhor começar agora e errar do que ficar procrastinando, esperando uma chance perfeita que pode nunca vir. O tempo não volta e depois dos 18, a vida passa muito rápido. Se eu pudesse voltar no tempo ou mandar uma mensagem para o meu eu de 20 anos atrás, acho que apenas mostraria como a minha vida mudou e melhorou hoje – e como eu fui burro e lento em não ter acreditado nos meus potenciais.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Determinismo cósmico


Algumas pessoas dizem que temos muita sorte de termos nascido em um universo perfeitamente alinhado em suas forças fundamentais para que a vida surgisse (teoria da Sintonia Fina). Mas eu discordo dessa visão. Não acho que a existência de um universo "perfeito" seja mero acaso. Creio que o universo não podia ser de outro jeito, porque universos sem sintonia fina entre suas constantes fundamentais se desintegrariam antes mesmo de formarem. Somos possivelmente fruto de uma espécie de "seleção natural cósmica" em um multiverso. Os únicos universos que prosperam são justamente os que têm as leis da natureza dentro do alinhamento que conhecemos. É como a soma interna dos ângulos de um triângulo em uma superfície plana. A soma dos ângulos sempre irá dar 180 graus, porque não existem triângulos que não sigam essa proporção. O mesmo se aplica ao cosmo. Não somos mero acidente. Como parte consciente do cosmo, somos exatamente a única possibilidade que poderia haver. E a vida é apenas uma consequência da maneira peculiar como os átomos de hidrogênio se alinharam ao longo de bilhões de anos.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

O problema de um contato extraterrestre


Tenho quase certeza que uma visita alienígena ao nosso planeta faria com que os seres humanos se extinguissem. Isso por duas razões básicas. Primeiro, porque nós não nos sentiríamos mais únicos e especiais. E, segundo, porque não possuímos nossos conflitos internos bem resolvidos. A humanidade precisa se encontrar e se entender antes de tentar entrar em contato com o desconhecido. Nós, sapiens, somos muito presos aos nossos próprios conceitos de inteligência, vida e linguagem. Certamente, não estamos sozinhos neste universo inimaginavelmente grande, mas o que faríamos se descobríssemos que a vida existe em outros mundos? Como iríamos interagir com seres avançados que superaram a mortalidade, as leis da física e as ameaças de autodestruição? O que temos a dizer aos aliens? Como vamos explicar para eles o que fazemos com nós mesmos e com o nosso planeta? Como as religiões se comportariam diante de um contato extraterrestre?

Pode parecer uma conclusão covarde, mas eu acho que somos felizes por não sabermos se há vida lá fora ou não. Descobrir vida, especialmente vida inteligente, poderá ser o pontapé inicial para nossa extinção como espécie seja pela via da autodestruição, ou então pela via de um contato extraterrestre que causaria o mesmo impacto genocida que a colonização espanhola causou. Para ser honesto, dada as distâncias gigantescas entre as estrelas, a escala de tempo muito elevada para a vida inteligente surgir e a facilidade para ela desaparecer, possivelmente, não há nada com que possamos fazer contato na nossa galáxia. É por isso que acho que o único jeito seguro de sabermos se estamos sós ou não no cosmo é simulando o universo (ou parte dele) em supercomputadores. Mas aí temos as questões éticas de criar um universo e nos responsabilizar por todas as formas de vida que possam existir nele.

Enfim, em todo caso, eu e você certamente não estaremos mais vivos quando a humanidade (ou a espécie que evoluir dela) descobrir a resposta para essa grande pergunta existencial.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Não dá para comparar misandria com misoginia


Quem conhece este bloguinho há mais tempo sabe que eu sou um pacifista incorrigível que abomina qualquer discurso de ódio. Algumas pessoas podem ter ficado confusas com o post passado onde eu conclui que a misandria não existe apesar das falas agressivas contra os homens vindas de algumas mulheres mais exaltadas. Só que, como bem deixei escrito naquela postagem, a misandria não existe como uma ameaça real. A misandria em um mundo machista é apenas uma maneira das pessoas oprimidas – mulheres, no caso – darem um grito de "basta!" quando o feminismo sozinho não é suficiente para que elas sejam ouvidas. Daí que é preciso radicalizar. É claro que há frases absurdas supostamente atribuídas a feministas, mas as pessoas precisam entender que isso fica da boca para fora, feito com a intenção de chocar mesmo, de provocar, de fazer com que as pessoas acordem para essa estrutura de opressão que massacra as mulheres dia e noite há milênios. E quando digo "mulheres", refiro-me ao que a figura feminina representa socialmente, porque tanto a homofobia quanto a transmisoginia também são formas indiretas de atacar as mulheres. No caso da homofobia, basta ver que os gays mais atacados são justamente os mais "afeminados", pois eles são mais parecidos com uma mulher.

Pense na misandria como algo na mesma categoria da "heterofobia" ou do "racismo reverso". Ou seja: não passam de lendas urbanas; não existem de fato. São apenas contravalores caricatos para balancear essa equação da desigualdade. Homens não têm motivos para odiar as mulheres, porque elas não criaram um sistema de opressão contra eles. Mas mesmo assim muitos homens as odeiam. Aliás, o sistema patriarcal inteiro odeia as mulheres, fazendo com que elas mesmas se odeiem. Enquanto que mesmo tendo motivos de sobra para odiar os homens, a grande maioria das mulheres amam os homens. E até essa misandria é algo muito mais brando que a misoginia, porque não ocorre na mesma proporção. Não há uma ameaça real na misandria. Há ameaça real na misoginia, na homofobia, no racismo. Ódio contra homens não é se nivelar por baixo, não é um discurso de ódio como a misoginia: é mais uma reação, um desabafo. A única misandria realmente perigosa é quando ela parte de homens contra si mesmos. Na história, inclusive, há vários casos de homens que matavam outros homens por considerá-los inferiores ou perigosos. Apesar deste tipo de caso ser chamado tecnicamente de androcídio, ele é que se encaixaria melhor no termo 'misandria'. Portanto, ao invés de se indignarem contra essa coisa sarcástica que é a misandria, os homens deveriam direcionar sua indignação contra a misoginia: misoginia esta que ocorre de todas as formas possíveis e imagináveis 24 horas por dia.


Enfim, eu preferiria que todos dessem as mãos e fossem felizes para sempre, mas o mundo que vivemos ainda não permite isso. Enquanto esse dia de igualdade entre os seres humanos não chega, temos que lutar por um mundo mais humano, mais tolerante e em que ninguém precise dizer que sente ódio para se defender da crueldade de um sistema.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Misandria não existe


Um dos motivos que me fez criticar o feminismo neste blog em postagens antigas foram as posições extremistas que algumas mulheres tinham dentro do movimento. Mas após refletir um pouco, cheguei à conclusão que não cabe a mim criticar nada. Quem sou eu para criticar um grupo social que é oprimido por séculos? Quem sou eu para dizer o que mulheres devem fazer, falar ou sentir? Se eu tivesse sentido na pele tudo que elas sofrem, talvez até pudesse dizer algo, mas por questão de bom senso e empatia, acho melhor ouvir mais e contestar menos. Descobri que mesmo as falas extremistas são, na verdade, um desabafo, um grito de "chega" por tudo que as mulheres passam e sentem em um mundo cruelmente machista. E no meio desse desabafo feminino surge uma tal de misandria, que ao pé da letra quer dizer ódio aos homens. Só que diferentemente da misoginia, que é o ódio contra as mulheres, a misandria, em termos práticos, não existe.

Isso não é misandria, é diversão.
 

Ora, que "ódio" é esse que as misândricas dizem sentir? Esse ódio não é ódio de verdade. Todas essas misândricas têm pais, filhos, maridos e querem o bem de todos eles. Você não vê misândrica nenhuma pegar armas de fogo e sair matando homens por aí. Você não vê misândrica nenhuma cometendo masculinicídio. Você não vê misândrica nenhuma criando toneladas de páginas de ódio na deep web, posts com apologia a estupro e assassinato no 4chan ou assediando homens na rua. Você não vê misândricas espancando homens por aí e nem há qualquer aceitação social para a misandria, nem mesmo entre as próprias mulheres. Então a conclusão que eu cheguei é que embora a capacidade de odiar homens exista, a misandria, como fenômeno social, não existe. O que existe é um grito preso na garganta de quem não aguenta mais sofrer, ser controlada, espancada, assassinada, humilhada, objetificada, perseguida e ainda assim dizer que ama seus algozes. Nessas horas há a necessidade de radicalizar mesmo para romper os grilhões, já que o feminismo bem comportado não dá resultado.

Te cuida, esquerdomacho, a misandrinha vem aí!

Homens, saibam que mulheres não nos odeiam por sermos portadores do cromossomo Y, por termos um pênis ou por sermos cissexuais. O ódio que há é contra o mal que representamos contra elas como classe social. O animal social homem educado e socializado como macho em uma sociedade patriarcal é mesmo um ser terrível digno de repulsa. Mas mesmo assim as mulheres não nos odeiam como indivíduos. Elas odeiam o que nós representamos, o que nós fazemos contra elas e o que reproduzimos a cada ato machista e misógino que tira delas o direito de terem os mesmos privilégios que nós. Portanto, quando ouvir sobre mulheres que odeiam homens, entendam que essa é uma forma de autodefesa. Lá no fundo, a misandria é uma forma dolorosa de dizer que temos muito o que aprender e melhorar para sermos dignos do amor que as mulheres ainda insistem em nos dar. Ou melhor: a misandria é uma forma simbólica de matar o homem machista que há em todos nós para que possamos renascer como um ser humano e não como um "macho".

PS: Há um adendo a este post neste outro onde reforço que não dá para comparar misandria com misoginia.