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domingo, 16 de agosto de 2026

A vida é uma grande roleta da sorte viciada


Se tem três coisas que aprendi ao longo das minhas mais de 42 primaveras foi que: 1 - A vida não é justa. 2 - A vida não é bela. 3 - A vida não tem sentido. 

Isso me veio à mente quando recebi a recente notícia de que um conhecido meu está lutando contra um câncer mesmo sendo mais jovem que eu e tendo levado uma vida inteira totalmente regrada. Esse meu conhecido sempre praticou esportes, fez musculação, seguia dieta rigorosa, se mantinha dentro do peso saudável, não fumava, não bebia, dormia bem, tinha um trabalho que amava e, mesmo assim, num dos exames de rotina, pimba: câncer. Por sorte, foi encontrado em estágio inicial, mas eu acho isso muito irônico. Tem pessoas que levam uma vida absolutamente desregrada em todos os sentidos possíveis e vivem toda uma vida sem ter câncer. Sem falar de crianças bem novas que têm câncer e outras doenças supostamente "evitáveis", mas que não possuem qualquer ligação com estilo de vida. Tudo parece ser uma questão de sorte e probabilidade. E isso também não tem qualquer ligação com merecimento ou karma, porque senão pessoas desprezíveis seriam as primeiras ou únicas a ter essas doenças mais graves. É por essas e outras que não acredito em deuses ou predestinação. Acho que quase tudo no universo é uma questão de acaso. 

É claro que é sempre melhor jogar a favor das estatísticas, mas parece que o universo é indiferente ao nosso conceito de justiça e significado. Aí entra na conversa também a questão da beleza. A vida ser bela ou não é subjetivo, tipo um copo meio cheio ou meio vazio. Só que é difícil falar de beleza num mundo capitalista maldito onde as desigualdades sociais são criadas e naturalizadas por uma classe dominante egoísta, sádica e racista. Neste momento, temos cerca de 2 bilhões de seres humanos em situação de insegurança alimentar. Fora os doentes, desabrigados, feridos e sem esperança. É por isso que precisamos dar um sentido para vida, porque, na verdade, não há. Acho que a empatia, a solidariedade, o altruísmo, a generosidade, a inclusão social, as políticas de cuidado com as pessoas e o amor pelos nossos semelhantes ainda são a melhor forma de tornar esse mundo um lugar menos miserável e injusto. Não podemos só depender da sorte, porque, às vezes, me parece que a vida não passa realmente de um grande dado viciado.

sábado, 26 de abril de 2025

A Igreja Católica nunca mais será a mesma


Com o falecimento do Papa Francisco nesta semana, todos os principais holofotes do mundo passaram a ser direcionados para o Vaticano e para o Conclave que irá eleger seu sucessor. Isso não só por uma questão religiosa, mas, principalmente, por uma questão política. O Papa tem uma grande influência nas questões diplomáticas do mundo por ser um dos mais importantes líderes religiosos do planeta. Para citar alguns breves exemplos, a sua influência foi decisiva quando ele condenou o lawfare, o genocídio em Gaza, a discriminação contra imigrantes, os muros que geram exclusão e até a postura retrograda da Igreja diante dos homossexuais. Daí que muita gente se questiona como um Papa tão liberal quanto Francisco conseguiu ser escolhido pelo Vaticano como representante máximo de Cristo na Terra. A resposta é simples: sobrevivência.

A Igreja Católica sempre foi uma instituição ultra reacionária que para poder sobreviver apoiou coisas nefastas na nossa história como Cruzadas, Inquisição, escravidão e até o nazifascismo. Mas como o mundo neste século XXI tem se tornado cada vez mais liberal e tolerante no sentido dos costumes, para poder sobreviver e se adaptar às mudanças, fez-se necessário que um papado mais "progressista" fosse adotado pelo Vaticano. Isso também ocorreu porque a Igreja Católica tem perdido muitos fiéis para as igrejas protestantes, especialmente os mais jovens. Então nada melhor que um Papa mais humanista e revolucionário para cumprir esta missão. 

Claro que grandes mudanças nunca virão tão rápido no caso da Igreja, porque há muita resistência entre os próprios fiéis mais conservadores. Mas o que é notável é que há uma tendência a mudanças importantes no longo prazo que poderão incluir a aceitação de métodos contraceptivos, casamento homoafetivo e até mulheres exercendo o sacerdócio. Mas isso ainda vai levar tempo. O fato é que após Jorge Mario Bergoglio, a Igreja Católica nunca mais será a mesma.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

O melhor jeito de ser imortal é sendo mortal


Quando eu tinha por volta dos meus 17 anos, comecei a fazer uma série de reflexões a respeito da existência do deus judaico-cristão. Foi numa daquelas reflexões que concluí como deve ser horrível a vida de um deus. Imagine que horror seria se você fosse onisciente (soubesse de tudo), onipresente (estivesse em todos os lugares) e onipotente (capaz de tudo). A sua existência não teria graça alguma, ainda mais agravada pelo fato de que você seria literalmente imortal. Não poder morrer nunca é algo terrível e que fica ainda pior quando você tem o conhecimento sobre todas as coisas. Não existe nenhum sentido em viver uma vida em que você não pode mais aprender coisa alguma e que pode fazer tudo o que quiser. Seria um tédio, uma anedonia interminável. Pode parecer absurdo, mas o que torna a vida especial é justamente o fato dela acabar e de não sabermos de tudo. Enquanto mortais, estamos sempre buscando por algo que nos empurra para frente e nos motiva a viver. Até a morte é um motivo a mais para vivermos esta vida com mais intensidade, já que amanhã poderá não haver uma segunda chance para nós. O sofrimento e as angústias da existência um dia chegam ao fim para os mortais, mas para os imortais, ela durará para sempre.

É por isso que às vezes acho que somos reencarnações de um mesmo deus imortal. A única forma desse deus não sofrer com a imortalidade onisciente seria encarnando em seres mortais com uma espécie de reboot de memórias e de consciência a cada nascimento. O melhor jeito de ser imortal, quem diria, é morrendo. O engraçado é que enquanto nós invejamos os deuses por eles serem imortais, os deuses nos invejam de volta por sermos mortais. Isso só escancara a ideia de que apesar das dores, a vida é a nossa única chance de amar, de aprender, de conquistar e de se surpreender com a dádiva de cada segundo que estamos vivos.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

É melhor haver ou não haver vida após a morte?


Faz alguns dias que estive a pensar mais profundamente sobre a nossa condição existencial após a vida chegar ao fim. Cheguei à conclusão que, independentemente do que ocorra após a morte, o que espera por nós não é nada bom. 

A existência da vida após a morte é algo terrível pelo fato de que é impossível existir vida sem sofrimento. Se sempre estivermos morrendo e renascendo em ciclos infinitos como sugerem algumas doutrinas, nunca nos livraremos da angústia, das dores e das inquietações existenciais. Se houver reencarnação, estaremos presos a um karma sem fim de tragédias. Se houver inferno, estaremos sendo vítimas da injustiça arbitrária de um ditador celestial sádico. Já a tal vida eterna num paraíso perfeito é uma ideia pueril que também seria terrível, porque uma existência sem sofrimento algum nos levaria a um estado permanente de anedonia e tédio. Então continuar existindo após a morte seria algo indesejável, até porque perderíamos nossa identidade e nossas memórias com o passar do tempo em meio a um ciclo sem fim de existências que não teriam qualquer propósito.

Será este o fim de todos nós?

No caso de não haver vida após a morte, voltaremos a ser aquilo que sempre fomos durante todo o infinito passado antes do surgimento do universo, ou seja: um nada. Não seremos capazes de sentir, ver, ouvir, pensar, cheirar, lembrar ou perceber a existência do tempo e do espaço. Seria a inconsciência absoluta, como se tivéssemos presos num sono eterno sem sonhos ou como se tomássemos uma anestesia geral que duraria para sempre. Porém, tornar-se um "nada" não é nem o problema em si, porque o que não existe não sofre justamente por não está existindo. O problema aqui é a angústia que essa hipótese gera em quem está vivo. É angustiante imaginar que nossa consciência vai evaporar para sempre e a dos nossos descendentes e entes queridos também. Chega a ser até cruel do ponto de vista de seres gregários como os seres humanos a ideia de que nunca mais seremos capazes de sentir afeto, prazer ou felicidade.

Tornar-se imortal é a solução?

Existe ainda uma terceira possibilidade, que é a de alcançar a imortalidade em vida, seja através da clonagem, da criogenia, da digitalização do nosso cérebro, do backup da nossa mente ou de nos tornarmos indestrutíveis através do ciborguismo. Mas isso também tem um problema. Os sofrimentos inerentes à existência continuarão a nos perseguir. Afinal, a dor é o preço que se paga por estarmos vivos. Mas o pior nem é isso. O problema é que o próprio universo um dia deixará de existir, seja  através de um Big Crunch (universo cíclico), de um Big Rip (ruptura do espaço-tempo) ou de um Big Freeze (morte térmica). Não poderemos sobreviver a nenhum deles. A menos, claro, que criemos uma espécie de Matrix onde possamos viver mentalmente através de uma espécie de jogo da vida que rode em escalas de tempo gigantescas. Ou então que criemos universos paralelos e migremos para lá. Mas será que isso realmente valeria a pena?

Enfim, o que acontecerá após a morte é um mistério. Mas qualquer que seja a opção, ela não será fácil para nenhum de nós.

sábado, 23 de setembro de 2023

O Estado não é dono do útero de ninguém


Está sendo julgado no STF a ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) 442, que requer a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. Já tratei sobre o tema aborto neste blog de forma exaustiva e não pretendo ficar repetindo os mesmos argumentos de sempre. O único ponto que me incomoda nessa história toda é a reação desproporcional dos grupos religiosos. Eles querem impor na base do medo e da chantagem a vontade dogmática deles. Essa gente esquece que o Estado é laico e que, assim sendo, os valores morais deles não servem para estabelecer os padrões éticos da sociedade. 

A decisão de interromper a gravidez é individual de cada mulher. Se ela não puder fazer isso de forma segura, será forçada a viajar para outros países onde o aborto é legal, ou tomará substâncias abortivas por conta própria ou ainda pior: terá que arriscar a vida em clínicas clandestinas. Tudo isso porque uma elite política e religiosa formada por 99% de homens querem controlar os corpos das mulheres de forma autoritária. É o velho machismo institucionalizado. Já que não podem parir, o jeito que os machos opressores encontraram de controlar a reprodução foi castrando a sexualidade das mulheres e decidindo o que elas mesmas devem fazer ou não com seus próprios corpos. Não é exagero dizer que se homem ficasse grávido igual aos cavalos marinhos, aborto seria não apenas legal, mas motivo de orgulho também.

Chega de hipocrisia. Aborto não é "assassinato", porque mórulas, blástulas, gástrulas e nêurulas não são seres humanos. Além de que, interrupção da gravidez é uma questão de saúde pública. Respeitem as mulheres, respeitem os seus direitos e as suas vidas. 


quinta-feira, 3 de agosto de 2023

O mundo precisa ser mais cristão


Já vou logo adiantando para quem não me conhece que não acredito em nenhuma divindade e não sigo nenhuma religião. Mas, cá entre nós, a existência de um deus real faz muita falta ao mundo. Ontem mesmo fiquei indignado com pessoas que se diziam cristãs passando pano para um estuprador e culpando a vítima que estava inconsciente. Achei isso o cúmulo, mas dei um desconto por vivermos numa cultura de estupro onde relativizar casos de violência sexual é a regra. Só que a tragédia não para por aí. 

No mês passado, tive o desprazer de ver um conhecido meu (que se diz muito cristão) dirigindo diversos insultos contra pessoas maltrapilhas que pediam esmola num farol de trânsito. O argumento dessa pessoa foi que aquelas vítimas da miséria e sem moradia são culpadas pela própria pobreza por serem "preguiçosas". Dói muito ver outros seres humanos agindo de forma tão indiferente, cruel e hostil com os outros. Onde está o tal "amor cristão" que todos dizem ter? Onde está a caridade e a fraternidade? E se você sai em defesa dos oprimidos, já é logo rotulado de comunista, esquerdista safado, petralha e outras coisas que não têm nada a ver. Isso sem falar da incapacidade das pessoas perdoarem uma às outras, de respeitarem as diferenças e de enxergarem o outro como irmão. As pessoas fazem tudo ao contrário do que o próprio Jesus fez e ensinou. Inclusive, se Jesus voltasse nos tempos atuais, com certeza seria julgado, condenado e crucificado novamente ainda que de uma forma simbólica. Até porque muitos líderes cristãos contribuem para isso, distorcendo as palavras de Jesus para enganar, saquear e manipular as pessoas.

Veja como são as coisas. O mundo está tão podre que até um ateu acha que as pessoas precisam ter mais Jesus no coração.

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Somos todos um em uns


O último vídeo publicado no canal Em Poucas Palavras (Kurzgesagt) trouxe uma linha de pensamento bastante interessante que conheci na internet lá na década de 2000. Tanto nas comunidades do Orkut quanto no Yahoo Respostas, encontrei pessoas que defendiam a hipótese de que tudo é deus. Mas ao contrário do que pressupõe a doutrina panteísta, não estamos falando de "tudo" no sentido cósmico, mas de um "tudo" personificado que seria melhor traduzido em "todos". Todos nós somos deus. Como "nós" entenda como sendo todas as formas de vida do universo. Somos a manifestação consciente de um mesmo ser supremo em corpos e momentos diferentes. Ou seja: todas as consciências estão conectadas e todo mundo que existiu e vai existir são outras versões de você. Como costumavam dizer os adeptos dessa crença "neopanteista", somos todos um em uns. Há uma espécie de super consciência no cosmo que consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo sentindo tudo. Eu e você somos manifestações individuais por estarmos em corpos diferentes, mas, na realidade, é como esse ser supremo super consciente estivesse vivendo e sentindo tudo que nós e todos outros estão vivenciando neste momento e até o fim do universo. Em outras palavras, é como se você, eu e todos fossem a mesma entidade em corpos diferentes e que apenas não está plenamente consciente disso. 


Segundo esse pensamento, quando morremos, reencarnamos em outros seres de outras épocas, seja do passado ou do futuro. Hoje, estou neste meu corpo, mas depois que morrer, poderei estar no corpo de um camponês na idade média ou no de um astronauta ciborgue no ano de 3255. Ou poderei reencarnar em você, porque você e eu somos, na realidade, exatamente o mesmo ser em momentos temporais e perspectivas diferentes. Isso significa que todos os seres humanos que já existiram e que existirão um dia são a reencarnação da mesma consciência, do mesmo ser. Todo o bem ou mal que você fez a alguém, na verdade, você fez contra você mesmo, porque todos são você. A ideia parece confusa ou até absurda, mas ela é ótima por despertar o senso de empatia entre os seres humanos e até mesmo nos não humanos. 


Se tudo isso é verdade ou não, não há como saber, mas é bastante estranho e curioso que estejamos vivendo o aqui e o agora durante apenas algumas décadas, sendo que a chance disso acontecer na história do universo é quase nula dado o tempo total de vida útil do universo e da baixa probabilidade de termos nascido. Se você parar para pensar, se o espermatozoide que o gerou tivesse se atrasado por uma fração de segundo ao entrar no óvulo, você nem estaria aqui. E se qualquer espermatozoide de qualquer antepassado não tivesse fecundado o óvulo específico naquele momento, nenhum de nós teria nascido. Seriam outras pessoas em nosso lugar. Mas será que essas pessoas também não seriam nós?

A seguir, deixo o vídeo mencionado que me motivou a escrever este post.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Você está acreditando no Jesus errado


Lá nos saudosos tempos do Yahoo Respostas, perguntei aos crentes de plantão como eles reconheceriam que Jesus seria Jesus Cristo mesmo quando ele voltasse e não um sósia aloprado (estilo Inri Cristo), um golpista ou um falso profeta. A resposta de alguns deles é que todo mundo reconheceria Jesus pela fé. Daí que mostrei aquela famosa foto do "Jesus real" e ninguém queria acreditar que ele era Jesus, porque o verdadeiro Jesus era branco de cabelos compridos. A verdade é que essa "fé" dos crentes estava era os induzindo ao erro, porque o Jesus como eles acreditam nunca existiu.

Jesus era um pouco diferente do que imaginávamos.
 

Apesar de ser ateu, eu admito que, segundo as evidências, tudo indica que Jesus realmente existiu. Há diversos documentos históricos que contam sobre um homem que viveu na região da Galileia fazendo as mesmas coisas que Jesus fez (exceto as partes dos milagres). Porém, em todos esses documentos, fica claro que o Jesus histórico de Nazaré não tinha nada a ver com essa imagem distorcida criada no Ocidente após o Renascimento. Jesus não era caucasiano, não nasceu no dia 25 de dezembro em Belém e nem se chamava "Jesus". O nome verdadeiro de Jesus, para quem não sabe, era Yehoshua, que significa Josué em hebraico. Esse Jesus eurocêntrico do ocidente é fruto de sincretismo religioso criado para tentar unificar o império romano junto com algumas remodelagens dos artistas da era renascentista. Isso sem falar dos erros de tradução que ocorreram quando a Bíblia moderna foi escrita e de muitos evangelhos apócrifos que contradiziam muitas verdades dogmáticas sobre o próprio Jesus. Então esse Jesus clássico que vemos em pinturas e filmes é uma caricatura tão irreal do verdadeiro quanto a pintura do Jesus Restaurado.

Retrato falado de Jesus criado por uma IA.
 

Minha intenção não é aborrecer ninguém e nem converter ninguém ao ateísmo. Minha intenção é que as pessoas saiam da sua ignorância e decidam acreditar naquilo que elas realmente tenham convicção. É muito triste ver milhões de pessoas, por exemplo, deixando de comprar comida e remédio para dar as suas suadas economias a um cara fantasiado de pastor que só pensa em ficar rico. Cada um é livre para acreditar no que quiser, mas eu não posso ver coisas que me deixam perplexo acontecerem e ficar quieto. Quer acreditar em Jesus, acredite, até porque eu também acredito na existência dele como humano e vários de seus ensinamentos no Novo Testamento são de grande valia para a humanidade. Mas achar que Jesus é esse negócio europeizado que só serve para enriquecer o clero é, no mínimo, triste.

PS: O Santo Sudário utilizado como "prova" da face de Jesus não foi da mesma época que Jesus viveu.

domingo, 10 de julho de 2022

Vida eterna é algo inimaginável


Imagine que você fosse imortal. Mas não apenas isso: que você também nunca envelhecesse, nunca adoecesse e nunca sentisse dores crônicas. Adicione a isso também o fato de que as pessoas que você mais ama também fossem imortais nas mesmas condições e vivessem para sempre em um lugar lindo e paradisíaco. Bacana, né? Só que isso tudo tem um porém: mesmo imortal, você ainda seria humano. Você existiria para sempre com seus defeitos, limitações, manias e convicções. Será que você realmente se aguentaria por toda a eternidade? Mesmo que a sua vida fosse inteiramente prazerosa, engajada e cheia de significado, chegaria um momento que você começaria a perder a noção do tempo, a ter problemas de memória e a entrar, cada vez mais, num terrível estado de anedonia e de crise existencial. Afinal de contas, qual é o sentido de viver se tudo será sempre igual? Gostemos ou não, o fato é que o cérebro humano não evoluiu para vivermos por milhares de anos. O que dizer então de milhões, bilhões, trilhões de anos... e mesmo essas ordens de grandeza são infinitamente pequenas perto da eternidade que você estaria condenado a viver. A própria vida perderia o sentido e o que antes era alegria, depois se transformaria em agonia.

A eternidade é algo que podemos ver, mas não podemos compreender.

 

O único jeito de lidar com esse problema da vida eterna seria morrendo, ou, pelo menos, dando um reboot na nossa mente que reiniciasse a nossa memória do zero de tempos em tempos. E, honestamente falando, eu às vezes penso que é exatamente isso que acontece. Algumas religiões antigas, como o bramanismo, se fundamentam no ciclo sem fim de começos e recomeços por toda a eternidade. Pode parecer doideira, mas eu, você e todo mundo podemos ser, na verdade, um único ser vivo imortal e onipresente que consegue coexistir em várias mentes diferentes simultaneamente. É como se cada ser vivo do universo fosse um pixel pelo qual o ser vivo Cosmos enxerga a realidade como um todo. Podemos ser, como diz o hinuísmo, um sonho do deus Vishnu numa eterna dança cósmica de Shiva de desconstrução e reconstrução. Ainda mais se considerarmos que o universo pode estar em loop e como não sentimos o tempo passar quando estamos "mortos", então o intervalo entre você morrer em um universo anterior e nascer no seguinte se passa instantaneamente. Isso faz sentido quando paramos para pensar que "esperamos" pacientemente durante longos 13,7 bilhões de anos desde o Big Bang para nascermos. Só que 13,7 bilhões de anos – ou seja lá o tempo que fosse – daria no mesmo, porque quem não existe não sente o tempo passar.

O cosmo estaria realizando uma dança de Shiva?

 

Enfim, deixando as divagações espirituais de lado, o fato é que as pessoas enxergam a morte de maneira muito fatalista e pessimista no ocidente. A própria maneira como enxergamos a "morte programada" (suicídio e eutanásia) mostra como somos preconceituosos com o fim da vida. Tudo bem ficar triste com a perda, afinal, nunca mais veremos ao vivo a pessoa que faleceu. Mas a gente precisa aprender a ver a morte como algo bom: como o fechamento natural e necessário da vida. Havendo loop cósmico ou não, universos paralelos ou não, simulações de universos ou não; temos que entender que novas vidas só nascem quando vidas anteriores morrem. Ou será que você já se esqueceu que somos feitos de matéria orgânica reciclada de outros seres de vivos que morreram antes de nós? E seus átomos, acha que vieram de onde? Eles vieram de estrelas mortas há bilhões de anos. E mesmo muito tempo após a nossa morte, pode ter certeza que novas vidas surgirão das mesmas moléculas que eu, você e todo mundo somos feitos agora. Afinal, na natureza nada se perde, tudo se recicla. Ainda bem.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Por que só os seres humanos têm alma?


Antropocentrismo: este é o motivo pelos quais os seres humanos se acham os únicos seres vivos do planeta (e até do universo) a terem uma alma. É muita arrogância achar que somente uma espécie entre bilhões de outras do planeta possui a capacidade de imortalidade ligada a um espírito imaterial. Afinal de contas, o que é que nós temos para sermos tão especiais assim? Consciência? Polegar opositor? Córtex cerebral? Linguagem? Chimpanzés têm tudo isso e eles – segundo a maioria das religiões – não têm alma. Esse nosso egocentrismo especista é apenas uma maneira delirante de nos sentirmos dominantes e especiais em relação aos outros seres vivos. 

Vale lembrar que até pouco tempo atrás algumas das maiores religiões não consideravam, por exemplo, que índios e escravos tivessem alma. Humanos pré-históricos também não tinham alma e outros hominídeos que os antecederam menos ainda. Então essa história de vida após a morte não passa de uma forma de controle social e conforto psicológico, já que ela só interessa para um grupo específico de humanos do momento presente. Como os animais, mesmo os sencientes, não possuem uma capacidade de interlocução que os coloque de igual para igual com os seres humanos, então eles são tratados por nós como sendo inferiores e desalmados. Na verdade, essa história de "alma" é mais uma questão política do que espiritual. Isso porque os animais até podem ter uma alma, mas como os humanos não têm como tirar proveito disso, então considera-se que eles não têm. Eu, como cético e ateu, acho que alma nem existe. Essas historinhas de vida após a morte, EQM, espíritos, anjos, céu e inferno não passam de folclore. Quer dizer, teoricamente, vida após a morte até pode existir, mas com certeza ela não é do jeito que as religiões preconizam. Vida após a morte estaria ligada, de um ponto de vista mais científico, a multiversos, universo cíclico, a clonagem, a criogenia e ao backup de consciência. E tudo isso inclui os animais, plantas e até micro-organismos.

Lembranças de Outra Vida: já pensou em reencarnar num cachorro?

É claro que há exceções. Existem religiões que consideram que os animais possuem alma e que nós, humanos, podemos reencarnar em outras espécies, inclusive espécies extraterrestres. É menos pior, mas continuo achando delirante, porque alma, na minha opinião, é algo tão real quanto o Coelhinho da Páscoa. Qualquer coisa que seja invisível, indetectável e intangível não deveria ser levada a sério por ninguém, especialmente por quem se considera mais inteligente que os demais animais.

domingo, 3 de julho de 2022

Deus não joga dados, mas joga videogame


Quando Albert Einstein proferiu sua célebre frase "Deus não joga dados", ele quis dizer que o universo não é aleatório ou incerto ao lidar com as probabilidades impostas pela mecânica quântica. Porém, aleatório ou não, de uma coisa eu tenho me convencido cada vez mais: de que o nosso universo se parece bastante com um ambiente simulado. Eu diria até mais: que nós podemos estar, neste exato momento, sendo NPCs de um jogo de videogame construído para entreter nossos criadores.

Afirmo que podemos estar dentro de uma simulação digital por várias razões. Para começo de conversa, o universo é estruturalmente matemático e obedece a uma série de leis fundamentais e constantes que são obrigatórias para o seu funcionamento harmônico. Um exemplo disso é o limite para a velocidade das partículas (fótons) que é a velocidade da luz. Se a velocidade da luz não tivesse um limite, nosso universo simplesmente colapsaria. Aí temos também as quatro forças fundamentais da natureza: gravidade, eletromagnetismo, força nuclear fraca e forte. Elas não são chamadas de fundamentais à toa. Sem elas, o cosmo sequer existiria como ele é e não permitiria a existência da vida. Isso sem falar da sintonia fina entre os valores das constantes fundamentais dessas forças que são determinantes para que as coisas sejam como são. Só que esses pontos mencionados não indicam, sozinhos, que o universo seja simulado, já que eu estaria apelando para uma teleologia barata para tentar provar o meu ponto de vista. O que realmente deixa as coisas suspeitas é a maneira independente com que o universo funciona – como se ele fosse uma máquina programada para obedecer a algoritmos específicos. É como se houvesse instruções típicas de computadores determinando como as coisas precisam funcionar no universo.

 

Olhando do ponto de vista quântico, há fenômenos que se assemelham muito com o famigerado comando "Crtl+Z" que há na programação. Ou seja: coisas se desfazem espontaneamente como estivessem obedecendo a um código-fonte pré-programado. Pior que isso é que usamos equações e valores fundamentais para calcular até as coisas mais simples, tais como os cálculos trigonométricos e os valores atribuídos a pi (π = 3,14159), a constante de Euler-Mascheroni (γ = 2,71828) e o número de ouro da proporção áurea (φ = 1,61803). Além disso, o fluxo em escala logarítmica como se comportam os raios cósmicos e as interações gravitacionais trazidas por buracos negros remetem a modelos que podem ser emulados em computadores. Isso porque eu nem mencionei que os nossos cinco sentidos são apenas impressões geradas por impulsos elétricos que chegam de maneira sistemática aos nossos cérebros. Essa química cerebral é algo que, diga-se de passagem, pode sofrer interferência de mecanismos eletrônicos como vimos em experimentos neurológicos tais como o Capacete de Deus ou, indo mais fundo, como a realidade simulada em filmes como The Matrix.

 

Como podemos observar, o nosso universo é estruturalmente lógico – e como todo sistema lógico, ele pode ser traduzido em código binário (bits e bytes) para transcrever suas informações. O que eu quero dizer com toda essa conversa é que, hipoteticamente, o universo pode ser algo virtual. Trocando em miúdos: nós já podemos estar em uma espécie de metaverso do futuro. E se realmente assim for, talvez Deus não seja um bom velhinho sentado em cima das nuvens, mas sim um programador que nos trata como meros avatares em seu joguinho de videogame. Já pensou?

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

O Brasil está virando um Evanjeguestão


Institucionalmente falando, nós temos três poderes: executivo, legislativo e judiciário. Porém, em nossa semidemocracia representativa burguesa há mais poderes que esses. Temos também os poderes dos militares, da plutocracia, da imprensa, das igrejas e das milícias. O que mais tem crescido no Brasil nos últimos anos tem sido o poder das igrejas, especialmente das igrejas evangélicas. O curral eleitoral que uma igreja representa hoje pode decidir uma eleição. É por isso que tantos políticos, mesmo os progressistas, acabam cedendo certas pautas em troca de apoio dos (pastores) evangélicos. E os pastores são muito eficientes em demonizar uns candidatos e partidos e endeusar outros. Infelizmente, muitas igrejas evangélicas deixaram de focar na fé e no amor cristão para virar um balcão de negócios. Também é cada vez mais comum o envolvimento de muitas igrejas com o crime organizado e as milícias, formando uma base de apoio poderosa para muitos políticos pilantras bem conhecidos. 

Por tudo isso, a tendência é que a laicidade do Estado seja cada vez mais depenada e a política vire cada vez mais refém de pastores com retórica ultraconservadora e autoritária. Se as forças democráticas não reagirem a isso, o Brasil irá virar a médio prazo um Talibã neopentecostal, ou se preferir, um Evanjeguestão.

domingo, 6 de junho de 2021

O charlatanismo se refuta sozinho


Uma coisa que eu vivo me questionando é como pode tanta gente ser ludibriada por aproveitadores que dizem falar em nome de Cristo, mas que cobram um valor mensal para que o fiel "financie" sua vaga no paraíso. Pior que isso são aqueles que vendem itens abençoados que "curam" as enfermidades. Ora, se aguinha mágica cura e só o dízimo salva, então para que ter fé? É por isso que a melhor coisa que fiz para minha vida foi ter me tornado ateu, porque pelo menos desse tipo de charlatanismo eu estou livre. Enquanto isso, tem crente doando auxílio emergencial para pastor, tem gente deixando de comprar remédio para pagar o dízimo e até crianças vendendo seus brinquedos para honra e glória do senhor Jesus. O que me ferra é que eu tenho uma empatia acima da média e isso me obriga a buscar escapismos da realidade para não passar raiva à toa.

sábado, 15 de maio de 2021

O problema não é a religião, mas sim o seu mau uso


Tem muito ateu militante por aí que age com bastante sectarismo com relação a crenças religiosas. Eles combatem não somente a religião do ponto de vista institucional, mas também a própria crença em divindades. Eu entendo o ponto de vista deles, porque também sou ateu e cético, mas não acho que a militância em si tenha algum efeito prático positivo. Isso porque é impossível eliminar as religiões do mundo. Os seres humanos sentem a necessidade de escapismo, de crer em algo sobrenatural, de se sentir parte de um grupo, de ter suas dores e angústias amenizadas. Incluídas em uma igreja, muitas pessoas se sentem acolhidas e passam a ganhar tanto engajamento quanto significado na vida. Não acho que as igrejas, sinagogas ou mesquitas sejam o problema. O problema é o fundamentalismo, o pensamento dogmático de impor o seu ponto de vista para todos e o uso da sua crença como justificativa para fazer coisas erradas. Eu sou contra os ataques ao estado laico, contra os pilantras travestidos de pastores que só querem roubar os fiéis e o uso político das igrejas. Fora isso, para mim é ado-ado-ado, cada um no seu quadrado. O que eu tolero, no máximo, é a regulamentação do uso das religiões para que elas sejam domesticadas e não transformem o país em uma teocracia.

domingo, 9 de maio de 2021

Assassinos de cristo


Já deixei claro em outras oportunidades que há tempos não sou mais religioso, crente ou teísta. Sou um livre pensador que me vejo na obrigação de contestar todo tipo de pensamento dogmático que julgo ser perigoso ou incoerente. No caso do cristianismo, temos muita coisa podre, criminosa e hipócrita que não faz qualquer sentido diante de tudo que Jesus ensinou aos seus discípulos.

O "cristão" de hoje – abrindo aí honrosas exceções – pratica o anti-amor através da homofobia, racismo, aporofobia, ódio de classe, egoísmo, misoginia e depois vai à igreja ou ao culto tentar comprar a sua vaga no paraíso com dízimo, ofertas e falso arrependimento. É um escárnio e um desrespeito a tudo que Jesus pregou. Já os líderes religiosos enriquecem vendendo indulgências e quinquilharias supostamente sagradas ou abençoadas dentro das igrejas, coisa que Jesus nunca aprovou. Tiram capetas, falam em línguas sem sentido e depois cobram pelo show. Canalhas, mentirosos, salafrários! Deixem de hipocrisia. Foram pessoas assim que traíram e assassinaram Cristo. Vocês não são cidadãos de bem. Vocês não são cristãos. Vocês mataram Cristo pela segunda vez e enterraram tudo que ele ensinou.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Não há solução fora da política


Cuidado, camaradas, estão oferecendo as soluções erradas para os problemas do nosso povo. As pessoas querem emprego, querem passar em concurso público, querem entrar numa faculdade, querem melhorar a renda, querem tratar suas doenças sem gastar uma fortuna, querem qualidade de vida, querem realizar seus sonhos e a solução apresentada pelos canais da burguesia, normalmente, ou passa pela "fé", ou passa pela "meritocracia". Isso é uma mentira para esconder a real solução dos nossos problemas. 

Na verdade, a solução passa pela POLÍTICA, porque é o ESTADO que deve oferecer educação para a formação básica, a redistribuição de renda para criar demanda e saúde universal gratuita para que você não vire estatística. É o Estado que deve cuidar desses investimentos públicos através de políticas inclusivas voltadas para a classe trabalhadora. Falta de emprego, de educação, de oportunidades, de saúde e de renda quase nunca é um problema individual das pessoas. Na verdade, esses são problemas estruturais do capitalismo. Esqueça essa balela de meritocracia, porque ela não existe dentro do sistema capitalista. Tudo no capitalismo é distorcido para favorecer as classes dominantes. Você não é pobre por ser burro, preguiçoso ou incapaz. Você é pobre porque o sistema foi construído para que você e a maioria dos seres humanos fosse saqueada e ficasse desse jeito. Culpar você individualmente pelo seu próprio fracasso é uma cortina de fumaça, porque a verdadeira culpada pelo seu fracasso é a estrutura hierárquica do sistema político-econômico em que vivemos.

Sem política, ninguém muda o mundo.


Entre as camadas mais populares da população é o neopentecostalismo que tem se aproveitado dessa ausência de políticas públicas para fazer lavagem cerebral nas pessoas. Mas é justamente a ausência de políticas públicas do Estado que gera violência, desigualdade, desesperança, desemprego, pobreza, miséria, doença, roubalheira e morte. A religião não resolve esse tipo de problema. As igrejas vendem a ilusão da prosperidade e cobram o dízimo. E aí que o pobre fiel tem uma sensação equivocada de que seus problemas resolver-se-ão com oração, ofertas e jejum. Não me levem a mal, eu entendo e respeito a sensação de acolhimento, de recompensa e de pertencer a um grupo em meio a nossa sociedade excludente e individualista que as religiões proporcionam, mas isso não é solução para os problemas da coletividade. Se ser religioso te faz feliz, então que tu sejas feliz assim. Mas os problemas da sua família, da sua comunidade e do seu país não cairão do céu através de uma graça divina. Eles só serão resolvidos através do engajamento político e da luta social. 

O mesmo alerta também vale para os progressistas que acham que irão acabar com as desgraças do mundo capitalista com pautas identitárias, lacração e memes. Não. Não irão. Para acabar com a pobreza e com a exploração da classe trabalhadora é necessária uma consciência de classe e uma insurreição coletiva contra o capital. Um espírito transgressor despolitizado é só um espírito de porco que serve de joguete para os plutocratas que mandam no mundo e fazem da nossa vida um inferno. É preciso entender a raiz dos problemas e jogar duro contra os reais donos do poder. Do contrário, seremos apenas pobres coitados correndo atrás do próprio rabo.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Crer em deuses não é obrigatório



Certa vez, duas mulheres, não me lembro de que igreja (acho que eram Testemunhas de Jeová), me chamaram para conversar no portão da minha casa num domingo de manhã. As duas mulheres foram até bem simpáticas, mas quando eu disse a elas que não acreditava em deus (entenda como 'deus' o deus judaico-cristão), elas ficaram visivelmente escandalizadas. Imediatamente, elas se despediram e foram embora com um ar de indignação.
Essa não foi a primeira vez que vi pessoas indignadas ao se depararem com descrentes. Isso, diga-se de passagem, acontece com bastante frequência, porque as pessoas comuns – que são ignorantes em relação a outras crenças – não sabem lidar com a fé diferente devido ao pensamento dogmático imposto pelas religiões.

Infelizmente, ainda existe muito preconceito com pessoas que não são cristãs, especialmente os ateus, que são vistos por muitas igrejas como pecadores imundos ingratos com Jesus. As pessoas costumam ter uma falsa dicotomia muito perigosa com relação a suas crenças. Ou você crê no mesmo deus que elas, ou você é um ser maldito. Num mundo onde temos centenas (senão milhares) de religiões, é muito ingênuo e perigoso achar que só a sua religião é a única verdadeira. Eu mesmo já li bastante sobre diversas religiões, mas nunca me senti atraído ou encantado por nenhuma delas, muito pelo contrário. Sinto-me muito feliz e realizado sem ter crenças religiosas. Eu não preciso de uma religião para que a minha vida seja rica de sentido e felicidade.


No que eu creio?
Eu gosto de me definir como uma metamorfose ambulante, porque nunca gostei de rótulos e nunca me senti 100% convicto em nenhuma crença que tive ao longo da vida. Hoje, eu me considero um panteísta, que seria uma espécie de "ateísmo romantizado". O deus que acredito não é esse deus pessoal e humanoide que faz parte do imaginário popular das religiões abraâmicas. Os deuses pessoais, no meu ponto de vista, não passam de pura criação humana. Não há e nunca houve qualquer prova da existência de qualquer deus pessoal desde os tempos da antiga Pérsia (Zoroastrismo), da Babilônia (Enuma Elish) e da antiga Mesopotâmia (Epopeia de Gilgamesh). O deus judaico-cristão também segue na mesma linha dos deuses antigos. Não vejo qualquer verossimilidade nos textos supostamente sagrados atribuídos aos deuses atuais. Aliás, todos os deuses atuais são baseados em crenças mais antigas, em crendices ou em sincretismo religioso.

A minha crença é em um deus impessoal, inconsciente, sem aparência definida e sem ligação direta com nossos anseios existenciais. Deus, para mim, é o próprio cosmos e toda a energia que o permeia. E não crer nos deuses das religiões não me torna uma pessoa imoral ou má, porque a boa índole vem do caráter e o caráter vem de uma série de elementos não espirituais como educação, empatia, valores seculares (sociais), respeito e amor aos semelhantes. Não é necessário crer numa divindade para ser uma pessoa que respeita a ética e os valores humanos. É por isso que é preciso acabar com essa visão preconceituosa sobre os descrentes. Ninguém é melhor ou pior por ter ou não uma crença religiosa.


De onde vem a fé?
A crença numa religião ou seita específica é determinada, na grande maioria das vezes, pela pressão social que uma determinada cultura exerce no tempo e no espaço. Se você nascesse num país de maioria muçulmana, por exemplo, haveria muito mais chance de você ter sido muçulmano do que ter sido cristão. Se você tivesse nascido na Grécia antiga, havia uma grande chance de ser politeísta. A religião dos pais, neste caso, é o fator mais decisivo, porque são os pais que inserem a criança desde muito nova nos rituais de suas crenças.

Já a crença em algum deus, seja ela ligada a religião ou não, vem do que eu chamo de 'angústia espiritual'. Essa angústia espiritual existe diante de três aspectos: 1- da dúvida diante da origem de tudo que existe; 2 - dos sofrimentos da vida e 3 - do desconhecido que há após morte. Ou seja, a maioria das pessoas acredita ou no "deus das lacunas" (lacunas do conhecimento humano), que se chega através de perguntas como "de onde viemos" e "para onde vamos". Ou então no "deus da panaceia", que é aquele deus que serve como amparo para curar todas as dores, doenças e problemas da vida.
Quando você se torna um descrente, esses aspectos precisam estar bem resolvidos dentro de você, senão haverá sofrimento e até mesmo depressão, como aconteceu comigo quando caiu a ficha de que o deus judaico-cristão não passava de uma criação mítica humana. Uma pessoa só se torna uma descrente livre e feliz quando ela aprende a lidar com a dor, com as angústias e com as dúvidas de forma saudável e sem recorrer a muletas sobrenaturais.

Enfim, o que me torna feliz mesmo sem crer em um pai bondoso que criou o universo e que me ama muito é a capacidade que eu tenho de lidar de forma saudável com as intempéries da vida. Eu aprendi a ser forte e a tirar forças de dentro de mim mesmo diante das dificuldades. E sobre a origem do cosmos, o universo não precisa necessariamente ter uma causa: ele pode sempre ter existido de outras formas. E se teve uma causa, essa causa não necessariamente foi uma inteligência superior. O universo pode ter surgido de outros universos, de uma colisão de buracos negros pandimensionais ou qualquer outra causa física desconhecida. Como bem disse Christopher Hitchens, "depois da invenção do telescópio e do microscópio, a existência de Deus não serve mais para justificar nada". Diante dessa frase do Hitchens só me resta mesmo dizer "amém"!

Namastê!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Por que não creio em deuses?


Pois é, faz tempo que não escrevo sobre deuses e religiões. Eu tenho evitado escrever sobre esse assunto de forma crítica por duas razões básicas. A primeira razão é a falta de interesse mesmo, já que tenho pouco tempo para escrever e assuntos mais interessantes para tratar. E a segunda razão é para não desamparar espiritualmente os religiosos. Isso porque eu compreendo na essência o que leva as pessoas a seguirem uma religião/doutrina e a acreditarem em deuses. Afinal, já fui cristão um dia e sofri bastante quando perdi minha fé. Acho cruel tentar tirar dessas pessoas o único refúgio existencial que muitas delas têm diante das aflições da vida. Mas se as pessoas não se importarem em saber por que sou irreligioso, agnóstico e apateísta, então tenho que ser franco com elas.

Eu sou o que sou porque tudo que e vi e vivi ao longo da vida me levou à conclusão que, ao contrário do que as crenças espirituais pregam, não há verdades supremas no universo. Não há como haver certezas absolutas para nós, humanos, que temos uma percepção sensorial muito limitada da realidade e estamos em constante processo de aprendizagem e autocorreção. É precipitado, no meu entendimento, tirar conclusões definitivas sobre todas as coisas baseadas exclusivamente na fé ou em evidências anedóticas (pessoais). E as religiões são uma maneira de direcionar a fé das pessoas para uma percepção equivocada da realidade que se enquadre dentro dos padrões morais de uma sociedade. A religião serve, basicamente, para preencher o vazio existencial das pessoas e para tentar colocar uma ordem social e moral no mundo. Eu, hoje, creio em tudo aquilo que não contraria as evidências. E a existência de certas entidades sobrenaturais e seus dogmas me parecem contrariar muito todas as evidências racionais e científicas por violarem constantemente as leis da física e da lógica. Sem falar que eu não preciso seguir uma religião para entender a importância de ser uma pessoa ética, correta e generosa.
 
Eu acho absurda, por exemplo, a ideia de deus ser um velho de pele branca sentado num trono sobre as nuvens preocupado em fiscalizar a vida íntima das pessoas. Seria, no mínimo, sem sentido criar um universo com bilhões de galáxias para se preocupar com uma única espécie de um único planeta de uma única galáxia. É por isso que a minha visão de deus é uma visão panteísta. Ou, na pior das hipóteses, uma visão pandeísta que considera que o universo é, na verdade, um experimento: uma simulação criada por alguma super inteligência artificial pandimensional. Ainda que o mais provável, para mim, seja que o universo é apenas um entre infinitos universos de um multiverso infinito que nunca teve começo ou terá fim. As coisas não teriam um porquê. As coisas simplesmente são como são sem causalidade e ponto. O finito (nós) não pode compreender o infinito (multiverso). 

 
Pelo que tenho observado, para a maioria das pessoas, o deus de hoje (do século XXI) é um misto de "deus das lacunas" com o "deus da panaceia". Ou seja: é um deus que serve tanto para explicar coisas que não entendemos ou não conhecemos, tais como a morte e a origem de tudo; quanto para acalmar ou curar as nossas inquietações existenciais envolvendo a doença, o medo, a solidão, o desemprego, a dor e a angústia. Eu não preciso desse tipo de deus, porque acho que conviver com o desconforto da dúvida e a aflição do sofrimento é algo necessário para evoluirmos tanto como indivíduos quanto como espécie. Esse tipo de deus que é uma espécie de 'escapismo da realidade', uma 'muleta espiritual' ou um 'amigo imaginário' não é necessário para que a minha existência seja rica de significado. Viver é sofrer e a sabedoria está justamente em saber lidar com esse sofrimento. Uns buscam a religião para encontrar essa sabedoria, já outros buscam a sabedoria e a resolução de conflitos existenciais na filosofia, na ciência, a política, na filantropia ou mesmo no amor.
 

Outra coisa que me afasta da crença de um deus dogmático é que ele manda para o inferno (e por toda eternidade) quem segue uma religião diferente da que ele determina. É um absurdo uma pessoa passar e eternidade no inferno só porque não seguiu uma religião específica. Essa mentalidade medieval de vigiar e punir é por demais primata para soar como algo divino, ainda mais ligada a um ser supostamente "superior e perfeito". A ideia de um deus punitivo sempre me pareceu mera tentativa de controle social por parte das religiões com conteúdo ético. Deus, hoje, como mencionei anteriormente, virou uma fuga da realidade, um escape dos que estão desesperados atrás de emprego e saúde. Se há um deus preocupado com nós, certamente deveríamos procurar por ele não pelo desespero, mas pelas boas obras, tais como o amor, o respeito, a solidariedade, a gratidão, a alegria, o altruísmo, a empatia. Sem falar que um deus que se revela aos homens através de livros antigos em um mundo de analfabetos é, por si só, uma grande contradição.


Mas o grande problema mesmo na crença de entidades sobrenaturais é que essas crenças geralmente são alienantes e conflitantes entre si. Quase sempre essas crenças privilegiam grupos específicos e mantém o sistema dominante intacto. Enquanto muitas pessoas cristãs acham que o problema do mundo está no demônio e no pecado, o verdadeiro problema do mundo está nas questões práticas. Injustiça social, empobrecimento da classe trabalhadora, imperialismo, preconceitos, miséria e violência se resolvem com atitude, com conhecimento e com luta. Ficar dentro de um templo rezando e dando dinheiro pro pastor não vai mudar em nada o mundo. Essa coisa quase folclórica das religiões abraâmicas de enredar histórias fantásticas entre o bem e o mal foi copiada de religiões antigas e me soam por demais mitológicas e distantes da realidade. Elas já não servem mais para a realidade dos nossos dias.

Enfim, como eu sou um sujeito pragmático, cético e curioso, as crenças religiosas não têm nada a ver comigo. Ainda bem.

quinta-feira, 12 de março de 2020

E se fosse Jesus?


Muito já foi falado e debatido a respeito do caso da detenta transexual que recebeu um abraço do doutor Drauzio Varella, mas um coisa não para de me incomodar neste caso. Eu fico aqui imaginando o que teria acontecido se no lugar do doutor Drauzio estivesse um cara chamado Jesus Cristo diante daquela trans. Será que Jesus a hostilizaria e a condenaria? Ou será que esse cara chamado Jesus teria compaixão, amor e solidariedade diante de uma pessoa condenada que amarga uma profunda solidão e abandono há anos?

É incrível como temos cristãos hipócritas que desconhecem o próprio Cristo. Jesus andou com todo tipo de gente "desprezível" para a sua época: ladrões, marginais, pecadores, leprosos, prostitutas, cobradores de impostos... E ele estendeu a mão a todos eles. Enquanto isso, muitos "cristãos" de hoje – que deviam dar a outra face e perdoar setenta vezes sete – se mostram rancorosos, violentos e incapazes de tolerar um gesto de afeto. É uma ironia que um ateu como o Drauzio Varella tenha um gesto de grandeza maior que muitos "cristãos" que se consideram o bastião da moralidade da raça humana.

Eu não preciso me estender falando que a ética médica exige que os profissionais formados em medicina cuidem das pessoas independentemente do caráter delas, até porque o que ocorreu vai além disso por ter sido um gesto de solidariedade espontâneo. Também é desnecessário dizer que abomino crimes hediondos como o cometido pela detenta. Mas o que este evento mostrou é que o neofascismo não está em alta à toa no Brasil. Uma população "cristã" que apoia preconceito, vingança, ódio e linchamentos deveria sentir vergonha da própria existência.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Religião e sexualidade não combinam


Há um tempo atrás, eu me deparei no Yahoo Respostas com uma pergunta de um sujeito que queria saber quais eram as posições sexuais permitidas pela igreja para ele fazer com a esposa. Ele estava aflito porque queria variar, mas tinha medo de estar desagradando a Deus com uma posição que fosse desaprovada pela Bíblia. Daí que eu me lembrei como são as coisas até hoje dentro das igrejas, independentemente de denominação.

Para boa parte das igrejas, sexo só pode ser feito para procriação, dentro de um quarto escuro (para não verem a nudez do outro) e da forma mais pudica e breve possível. E a loucura não para por aí: tipos 'alternativos' de sexo é pecado, preliminares é pecado, posições diferentes é pecado, lugares diferentes é pecado, camisinha é pecado, brinquedinhos sexuais é pecado, fantasias sexuais é pecado, masturbar é pecado, erotismo é pecado, pornografia é pecado, sentir desejo por alguém fora do casamento é pecado, ménage à trois é pecado, falar sobre sexo é pecado, PENSAR em sexo é pecado... Isso porque eu nem mencionei o que falam a respeito da homossexualidade... Aí, no fim das contas, querem que os fiéis não sejam frígidos, recalcados, problemáticos, moralistas e frustrados.
O sujeito que fez a pergunta que citei no início deste post é a prova de que a repressão religiosa à sexualidade não faz bem a ninguém. Tratar a abstinência sexual como "virtude" ou "pureza" é algo totalmente contra os nossos instintos aprimorados ao longo de milhões de anos de evolução para a variabilidade genética num planeta hostil. A natureza nos fez para transarmos por prazer, a reprodução foi uma consequência. Aliás, a atividade sexual é um dos elementos básicos da Pirâmide de Maslow junto com alimentação, água, respiração, sono e excreção.


Mas o grande absurdo que ninguém para pra pensar nisso tudo é que um deus que tem o universo inteiro para cuidar (e olhe que o universo é MUITO grande) acha mais importante dar uma de voyeur para saber o que cada primata falante faz em sua intimidade em um mísero planetinha de uma galáxia qualquer. Por que esse deus é tão obcecado com a nossa sexualidade? Será algum fetiche dele?
Eu sempre achei uma contradição burra esse (falso) moralismo cristão, porque além dele ser inútil em suas proibições medievais, só faz com que as pessoas se sintam culpadas. Nessa loucura toda, o que aumenta é o número de pessoas infelizes, de casamentos apressados, de gravidezes indesejadas, de DSTs e de apóstatas que abandonam suas religiões devido ao sufocamento da sua sexualidade. Creio que se houver um deus pessoal, ele não terá qualquer motivo para proibir que sejamos livres e felizes para viver a nossa sexualidade como uma dádiva. É por essas e outras que eu sou muito feliz por ter me livrado das garras da religião.

Namastê!