domingo, 27 de julho de 2014

O fim da infância

A programação infantil na TV está com os dias contados

Em abril de 2014, o projeto de lei 5921/2001 do deputado federal Luiz Carlos Hauly, do PSDB/PR, proibiu oficialmente no Brasil a publicidade e a propaganda para a venda de produtos infantis. O pretexto foi que essa medida serve para "proteger as crianças" do consumismo, já que elas são as maiores influenciadas pela propaganda. O documentário Criança, a alma do negócio e materiais como essa cartilha do Ministério do Meio Ambiente tentam mostrar como esse consumismo é prejudicial tanto do ponto de vista do desenvolvimento da criança quanto do ponto de vista da sustentabilidade e da saúde. Só que o que essa campanha toda não conta para você é que ela transformou a publicidade infantil num grande bode expiatório, sendo ela acusada por problemas como obesidade infantil, estresse familiar, conflito com os pais, criminalidade e até violência. Essa lei é extremamente autoritária, antilibertária, antidemocrática e anticapitalista.

Anticapitalismo: essa é a essência dessa lei

De quem é a culpa?
Entenda uma coisa: a culpa pelo consumismo desenfreado não é da publicidade! A propaganda não obriga ninguém a comprar. Os pais criticam as propagandas infantis porque elas fazem os filhos encherem o saco deles. O que os pais precisam, na verdade, é saber dizer NÃO, porque se uma criança tiver tudo que ela quiser, ela não terá limites. E não é para ficar com peninha da criança por ela não ter o brinquedo, porque a criança precisa saber lidar com a frustração. A culpa, pelo que quer que seja, não é da tevê, não é dos publicitários, não é dos atores, não é das câmeras e não é da propaganda: a culpa é dos próprios pais, que colocam filhos no mundo e querem jogar a responsabilidade de educá-los para o Estado. Terceirizar a criação dos filhos é uma medida típica de um Estado-babá que quer controlar a tudo e a todos sob o pretexto do "politicamente correto". Foi assim com a Lei da Palmada e é agora também com essa lei picareta – isso sem falar no Marco Civil, que é uma tentativa clara do Estado controlar a surface web sob o mesmo pretexto de "proteger o usuário das empresas malvadas". Um bando de deputados parasitas e corruptos (em sua maioria) não deveria decidir o que é melhor para os nossos filhos. Isso é uma afronta às liberdades individuais e é contra também à liberdade de expressão. Portanto, se você acha que a censura morreu junto com a ditadura militar, acho melhor abrir os seus olhos.

Como as coisas mudam...

Abaixo, deixo (com nostalgia) três tipos de comerciais que nunca mais veremos na televisão brasileira:







As consequências dessa medida
Kinder Ovo: só para +18
Eu acredito que proibir a publicidade infantil não adianta muita coisa. Os produtos vão continuar nas prateleiras, as pessoas vão continuar comprando e as crianças vão continuar desejando. Isso só funcionaria mesmo se proibissem toda e qualquer forma de publicidade ou se dessem um golpe comunista no país. Além disso, a publicidade infantil pode continuar a existir indiretamente através do merchandising editorial (tie-in), de mensagens subliminares, de propaganda boca a boca, de gincanas em escolas, de brindes promocionais e até mesmo de forma indireta através da própria publicidade para adultos. O problema mesmo é que com o fim oficial da publicidade infantil, só vamos ter publicidade voltada inteiramente para adultos e adolescentes. Isso leva, possivelmente, à 'adultização' precoce das crianças, que ao invés de pedirem doces e brinquedos aos pais, agora vão pedir bebidas alcoólicas, eletrodomésticos e produtos de beleza. Sem a publicidade infantil, tudo ligado ao universo infantil morre, porque sem poder anunciar seus produtos, as empresas de brinquedos, de gibis, de jogos e de alimentos industrializados vão desaparecer, afinal, como já dizia o ditado: "a propaganda é a alma do negócio". Sem a publicidade, ninguém vai conhecer que produtos a sua marca oferece e, consequentemente, você não vai vender o que precisa para se manter vivo no mercado. Quem já leu O Segredo de Luisa vai lembrar que sem a publicidade, vamos cair facilmente na "falácia da ratoeira". Ou seja: não adianta você ter o melhor produto se você não faz ele chegar até o seu público-alvo.

Sem a publicidade infantil, eles não teriam chegado ao Brasil

Outro problema evidente e mais grave é que os desenhos animados vão sumir de vez da televisão. Já temos pouquíssimos desenhos na tevê aberta e, com essa medida, eles não terão anunciantes para o seu público-alvo: as crianças. Como mostrei em outros posts, na minha época de criança (anos 80 e 90), a manhã inteira era tomada por programação infantil. Hoje, porém, a programação adulta tomou conta de toda a programação das emissoras abertas – principalmente por causa da queda na venda de brinquedos devido à concorrência com computadores e videogames. E agora, com essa lei esdrúxula, o golpe de misericórdia foi dado. Sem a publicidade infantil, não teremos mais desenhos, nem mais músicas infantis (saudades do Trem da Alegria) e nem brinquedos. Todos os profissionais do ramo (dubladores, produtores, fabricantes, músicos) sofrerão seriamente por falta de divulgação e de patrocínio. Toda a produção infantil será voltada exclusivamente para a tevê fechada e para a internet, onde o público é consideravelmente menor. Se o modelo de financiamento da tevê aberta viesse de outro meio ao invés da publicidade (como, por exemplo, através de algum débito extra na conta de energia elétrica), a programação infantil poderia continuar existindo mesmo sem publicidade. Mas esse não é o caso do Brasil.

Eis o significado da infância para quem foi criança nos anos 80 e 90

Saudades da infância
Qualquer um que pare para pensar um pouco vai perceber que essa lei deu uma verdadeira sentença de morte a tudo que a minha geração reconhece como sendo "infância de verdade". Eu assisti o Balão Mágico, a Xuxa, a TV Colosso, o Castelo Rá-Tim-Bum, os animes da Manchete, os tokusatsus, os filmes infantis, os Trapalhões... e é triste saber que tudo isso morreu. Foi um privilégio para mim ter vivido numa época onde a tevê não tinha esse tipo de barreira política, pois se assim tivesse sido, a minha infância teria sido muito sem sal, muito sem magia e muito sem encanto (oh, Disney). Acho que vivi na melhor época de todas para sermos crianças, onde quase tudo era voltado para o público infantil: música, tevê, brinquedos, jogos, revistas, gibis, lanches, etc. Essa lei de censura não passa de uma abominação que disfarça os ideais nefastos de uma esquerda política que tem se tornado excessivamente estatista, parcial, controladora, antilibertária e biruta.

Éramos felizes e não sabíamos...

Meio-termo em outros países
Em países como a Alemanha, por exemplo, ao invés da censura total, a publicidade de produtos infantis é mostrada depois das 21 horas, para que elas sejam direcionadas aos pais e eles decidam o que comprar para seus filhos. Há outros países que optaram por uma regulamentação que evitasse exageros e apelos para as crianças. Na Inglaterra, por exemplo, há um limite de preço para os produtos anunciados, evitando que famílias mais pobres sofram por não comprar produtos caros demais para seus filhos. Mas a censura total é algo extremamente radical e ditatorial. Nenhum produto lícito pode ter a sua propaganda proibida.

PS: Para ler mais detalhes sobre essa lei, o link do texto do projeto está completo neste link.

7 comentários:

  1. Esse artigo dramatizou o propósito da regulação sobre propagandas infantis. Vários jornalistas e defensores da indústria cultural proferem o mesmo discurso.
    Primeiramente, a influência decisiva que a indústria cultural desempenha sobre os hábitos de consumo da população não é moderna, é antiga. Tanto as crianças atuais como crianças da geração passada foram submetidas á essa influência. Não é á toa que vivemos em um país consumista, mas a acessibilidade para a adesão desse costume só acentuou-se com a chegada do PT no poder. Os Estados Unidos são o maior exemplo de como a indústria cultural é uma força determinante nos hábitos da população. É vendendo a felicidade e expandindo a idealização dela que a Coca-Cola aumenta o número de consumidores. É estendendo as propagandas de aprovação social que roupas e carros deixam de ser necessidades sociais simples e transformam-se em símbolo de poder. Você utilizou o mesmo argumento dos defensores do consumismo, o argumento de que opressão só é legítima se for física. Qualquer outro tipo de opressão que não envolva o uso da força física, como manipulação psicológica e estrutura social, não é opressão, logo nada obriga ninguém a nada. Isso não faz sentido. A indústria bombardeia o cérebro das pessoas associando o sucesso á capacidade de consumir. Por incrível que pareça, quem mais sofre dessa influência são os adultos, visto que são eles que têm dinheiro para comprar as comodidades produzidas pelo capitalismo, são eles que anseiam pelo exito financeiro, são eles que mantém o sistema ativo. As crianças sofrem influências, mas com coisas pequenas, como brinquedos e objetos do universo infantil, como você bem analisou.
    Daí, entra-se em um paradoxo. Vivemos em uma sociedade de consumo. Os pais são os condutores da criança e devem negar qualquer aquisição com a qual eles discordem. Mas aí entramos no caso: se os pais são consumistas, como eles iriam perceber que estão afogando o filho no mesmo mundo oculto? Se a indústria faz propaganda do álcool sem abordar suas consequências, ela também não vai dizer as consequências do McDonald's, do desejo incessante de comprar brinquedos e etc. Ela vai arrastar a criança para o mesmo fim. Daqui a pouco, temos uma sociedade de obesos (EUA 2004-2014), com altos índices de carro devido á interação de bebida e direção (Brasil até 2008) e pessoas associando dinheiro com felicidade, o que é desastroso para nossa integridade social. Quem vai intervir nas besteiras causadas pela indústria cultural? O Estado, que vai promover a prática de esportes para crianças e adultos através dos mais diversos mecanismos (por isso diminuiu-se o índice de obesidade nos EUA); decretar uma lei que PROÍBE dirigir alcoolizado e conscientizar a população com os mesmos mecanismos que a alienaram (propagandas); e por fim, despertar o povo em relação aos males do consumismo exacerbado, o que está ocorrendo hoje em dia através de vários meios, desde a mídia até a internet. Sem contar que o número de fumantes no país diminuiu veloz e significativamente com as regulações do governo sobre a indústria do cigarro, que nunca abordou as consequências do fumo. Como se para uma indústria que impõe hábitos em uma população sem abordar a consequência dos mesmos?
    Uma coisa é a pessoa ser consumista por escolha consciente. Outra coisa é você usar meios de comunicação para impor esse padrão de comportamento ao mundo inteiro e menosprezar aqueles que não o adotem, visto que esses terão pouca aceitação social e serão rotulados como pessoas sem sucesso, já que sucesso na nossa sociedade se resume á capacidade de acumular dinheiro. Sou totalmente a favor da proibição de propagandas que vendam estilo de vida.

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    1. Apesar de não concordar em tudo, achei o seu comentário bastante elucidativo. O grande problema é que a propaganda infantil foi transformada num verdadeiro bode expiatório por essa lei. Sobre os alimentos, as pessoas não ficam obesas apenas por causa das comidas gordurosas da publicidade, mas também pelo sedentarismo, pela falta de sono adequada e até pelo estresse. Assim como ninguém vira um alcoólatra somente porque assiste comerciais de cerveja, ninguém vira um comprador compulsivo de quinquilharias pelo mesmo motivo. Os comerciais poderiam ser menos apelativos e as empresas deveriam lançar linhas mais saudáveis de alimentos, afinal, é possível ter comida gostosa, saudável e nutritiva. O que eu discordo é da proibição de publicidade infantil ou de alimentos. Se existem outras opções, como você citou no caso dos EUA, não acho racional prejudicar empresas simplesmente proibindo a sua publicidade. A publicidade poderia também mostrar seus produtos sem apelar para o discurso impositivo de estilo de vida, evitando esses problemas todos que foi citado no comentário abaixo.

      Mas não esquecendo o foco deste post, quem sai perdendo mesmo são as crianças que não têm TV a cabo ou internet, porque se não houver um meio alternativo de manter os programas infantis no ar, eu farei parte de uma geração que vai contar com orgulho para os netos como era gostoso assistir o Balão Mágico e dançar ao som do Trem da Alegria.

      Grande abraço e obrigado por participar dessa discussão.

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    2. Sim, você chegou no ponto. Eu não sou contra comerciais, sou contra a propaganda apelativa que vende estilos de vida. Como eu bem disse abaixo: "compre um Vitara, assim você será feliz." "compre cerveja, assim você se socializará". "Compre McDonald's e seja feliz"
      A mídia nunca aborda os pontos negativos disso tudo, oq acaba deixando as pessoas mais propensas ao consumo desregulado. É do consumo desregulado que florescem os transtornos e os problemas de saúde, não do consumo equilibrado em si. A questão maior é saber se todos os comerciais serão proibidos, ou só aqueles extremamente apelativos que impõem padrões sociais. Por mim tudo bem proibir os últimos, mas proibir o comercial em si já é brincadeira.
      Esse projeto ñ é inquestionável, ele tem que ser debatido (ñ na câmara por deputados e senadores, mas pela população). Tem que ver até onde vai o limite da proibição e da liberalização de comerciais, pois em um extremo, reside a manipulação, no outro reside o autoritarismo.

      Obrigado por se envolver nessa discussão também, que diz respeito a todos nós.

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    3. Só complementando, acho que a publicidade infantil deve ser moderada, mas jamais proibida. Proibir comerciais de produtos de higiene, como escovas e cremes dentais, por exemplo, seria um fator que poderia piorar ainda mais a saúde dental das crianças. Proibir propagandas de produtos úteis à nossa saúde não me parece nem um pouco racional. Nem sempre o consumismo é algo ruim.

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  2. "Compre esse carro, e você será feliz." (Implica que quem não tem, não merece aprovação social, pois é um fracassado infeliz)
    "Compre esse baton e você ficará linda" (Implicando que quem não usar baton é feia e não merece nada)
    "Compre cerveja e você se socializará"
    Sou totalmente defensor da liberdade individual. Isso inclui a liberdade de viver uma vida cujo único motor é o consumismo. Mas impor esse hábito para todos não é liberdade individual, é coerção.
    Grande abraços e até mais.

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  3. QUE ABSURDO, NUNCA IMAGINEI UMA COISA DESSAS. IMAGINA UMA CRIANÇA NUNCA CONHECER CAVALEIROS DO ZODÍACO.

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  4. Nesse ano de 2014, isso foi tema de redação do ENEM. Tirei 920 se não me engano... Depois soube do resultado, consegui me classificar em primeiro pra universidade
    Bons tempos kkkkk
    Andar por esse blog e reler meus comentários é sentir e passear por 2014 novamente. Que nostalgia daqueles tempos
    Grande abraço

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