segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Homenagem aos "heróis" de 1964


Em diversos fóruns e páginas de redes sociais há grupos que estão se preparando para fazer uma megafesta no dia 1º de abril de 2014 em comemoração aos 50 anos do Golpe Militar de 1964. Não, isso não é uma mentira e nem uma brincadeira: realmente há um grupo razoável de pessoas que vão prestar homenagens aos "heróis de 1964".

Heróis de quê?
Quem acompanha as minhas postagens sobre política neste blog sabe perfeitamente que eu tenho uma repulsa enorme por qualquer tipo de ditadura. Defender ditaduras demonstra apenas fanatismo, extremismo, loucura e ignorância. E no caso do Brasil – ao contrário do pensam os ingênuos e fascistas – a ditadura representou vinte um longos anos de retrocesso. Ouvir as lamúrias de velhos latifundiários e de políticos de extrema direita pelo fim do regime militar é compreensível, mas ouvir jovens de 20 e 30 anos de idade falando em "heróis de 64" é algo absolutamente aterrador. Esses jovens não viram o horror que foi a ditadura e sequer pegaram num livro de história antes de virem falar de "heróis". Esses tais "heróis" destruíram a nossa liberdade, destruíram a nossa democracia, condenaram o nosso povo à injustiça social, causaram um grande atraso econômico e torturaram e mataram milhares de pessoas impunemente. Eles não salvaram a nossa democracia: eles destruíram a nossa democracia. Se não fosse pela pressão social pelo fim da ditadura e pelas Diretas Já, possivelmente, não teríamos retornado à democracia tão cedo. Portanto, defender o regime militar é um atestado de ignorância e fascismo extremados.

A ditadura foi um crime contra a humanidade

Quem foram os "heróis"?
Se alguém acha que os "heróis" de 1964 foram os militares, me desculpa, mas quem pensa assim está mal informado. Quem arquitetou, conspirou e executou o golpe militar no Brasil não foram os oficiais das Forças Armadas: quem aplicou o golpe foi a nossa elite burguesa conservadora com o apoio político, financeiro, militar e logístico do governo dos Estados Unidos da América. A nossa nação, ou melhor, a América Latina inteira, era vista e tratada como quintal dos EUA. O que atiçou os ânimos na época foi o belíssimo discurso do então presidente João Goulart na Central do Brasil em defesa da democracia e do povo. Para os paranoicos de direita da época, o comício de João Goulart não foi um discurso democrático, mas sim um discurso "comunista". Na linguagem do imperialismo americano, defender o povo era o mesmo que defender o comunismo. Os EUA viram esse discurso como uma ameaça e decidiram deflagrar o Golpe de Estado como precaução. Toda uma campanha difamatória contra João Goulart foi criada para manipular o povo através da mídia e fazê-los aceitar o golpe. Porém, é bom que se diga que a União Soviética e a China nunca "patrocinaram" o Brasil para implantar o socialismo aqui. Portanto, nunca ia haver um regime socialista no Brasil. Essa paranoia comunista nunca passou de um wishful thinking capitalista. A dura verdade foi que não tivemos heróis em 1964, só tivemos vilões e vítimas, muitas vítimas.

Uma imagem vale mais que mil palavras

Por que os EUA financiaram o golpe?
Castelo Branco e Lincoln Gordon
Nos anos 60 e 70 vivíamos no auge da Guerra Fria. Era o capitalismo norte-americano contra o socialismo soviético. Os EUA já tinham enfrentado um risco eminente de ataque nuclear com a Crise dos Mísseis Cubanos em 1962. Ter mais um país "contra" eles naquele período representava não apenas o risco de ataques nucleares, mas também o risco de perderem mercado e influência, pois o Brasil era (e ainda é) o país mais influente e importante da América Latina. Perder o Brasil para os "comunistas" seria uma ameaça econômica e militar, daí que os EUA se viram forçados a investir alto numa ditadura. Nós fomos, simplesmente, massa de manobra na mão da CIA e do Governo norte-americano.
Por conta dessa paranoia ianque, discursos como de João Goulart foram tratados como "ameaça comunista". Na verdade, creio eu, que se as pretensões de Jango fossem colocadas em prática, a América hoje provavelmente teria duas superpotências: os Estados Unidos e o Brasil. Aliás, o discurso de Jango foi tão contundente e comovente, que eu faço questão de anexá-lo no vídeo abaixo.



O verdadeiro herói de 1964, para mim, foi o presidente João Goulart e também toda a massa que o apoiou e acreditou que poderíamos transformar o Brasil num país melhor e mais justo para todos.


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