domingo, 12 de agosto de 2012

Como me tornei um descrente


'Imagine você passar a maior parte da sua vida tendo a convicção reconfortante de que há um Pai bondoso que te guia, que te ama, que te protege e que trará justiça ao mundo. Imagine também que você voltará a encontrar todas as pessoas que ama um dia após a morte num lugar belo e aconchegante. E imagine que de uma hora para outra tudo isso desabe e, como num golpe mortal, você se depare com a realidade de que tudo isso não passou de uma ilusão... O dia que concluí que Deus não existe, foi um dos dias mais difíceis da minha vida. Suportar o peso da realidade não é para qualquer um...'

A citação acima foi retirada do meu diário pessoal quando eu tinha 18 anos de idade. Ela mostra o quanto foi duro para mim ter que lidar com uma visão de mundo baseada no ceticismo.

Durante muito tempo, eu hesitei em lidar com o fato de que poderia não existir um deus, mas quando todas as evidências conspiraram contra as minhas crenças, a ficha caiu - e da forma mais dolorosa possível. Mas no final das contas, acabei sobrevivendo e entendendo que a realidade pode ser muito mais bela que uma mentira reconfortante.



"Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção
E tudo ficou tão claro
Um intervalo na escuridão
Uma estrela de brilho raro
Um disparo para um coração"
(Somos Quem Podemos Ser - Engenheiros do Hawaii)


Nesta postagem, eu pretendo revelar, em resumo, o caminho que percorri desde a minha fé inabalável no cristianismo até a minha total descrença em divindades. Como eu relatei lá no início, não foi nada fácil lidar com a descoberta da não existência de um Criador.


A fase religiosa
Eu, como todo ser humano, não nasci religioso e nem ateu - nasci indiferente a esses conceitos, até porque uma criança novinha não tem discernimento para abstrair a ideia de um Criador. Desde que foi embutida na minha mente a ideia de que existia um Deus, que eu passei a acreditar automaticamente na existência Dele. Criado numa família católica, fui um cristão convicto até por volta dos meus 15 anos de idade, quando comecei a fazer pequenos questionamentos, do tipo: Quem fez Deus? Por que o sexo só é pecado para os humanos? De onde veio a mulher de Caim? Entre outras.

A partir dos meus 16 anos, comecei a escrever um diário pessoal onde eu fazia reflexões sobre política, sociedade, literatura e religião. Só que quando a gente começa a fazer reflexões e a ter dúvidas com relação à religião, já fica claro que a nossa fé está indo para o saco. Apesar de ver contradições na Bíblia e de notar coisas sem pé nem cabeça no cristianismo, continuei me considerando um cristão, porque eu não aceitava a ideia de que tudo aquilo pudesse ser mentira - mas a semente da descrença já tinha sido plantada dentro de mim. Nessa fase, eu já não participava mais das missas e das cerimônias, embora eu ainda acreditasse no Deus cristão e no Paraíso. Para mim, ter fé e fazer o bem eram suficientes para que eu estivesse tranquilo com a minha consciência.


O início da fase irreligiosa
A grande ruptura que tive com o cristianismo foi quando eu tinha 18 anos. Foi aí que, em uma investigação mais profunda, a ficha caiu. Descobri que tudo que eu acreditei durante a minha vida inteira não passou de uma fábula, uma lenda, uma mitologia, uma tentativa humana de explicar as questões fundamentais. E junto com essa descoberta, vieram lágrimas, tristeza e depressão. A introdução desse post mostra como eu me senti com essa descoberta. Levei meses para me recuperar dessa queda.

Por volta dos meus 20 anos, descobri o deísmo - que é a crença num deus impessoal desligado das religiões. Para mim, os deuses humanos eram tentativas erradas de representar o único deus verdadeiro para mim naquele momento, que era o deus deísta. Mas eu ainda acreditava numa possível vida após a morte e que nós não éramos totalmente frutos do acaso, pois essas ideias ainda me traziam conforto.
Pouco tempo depois que simpatizei com o deísmo, comecei a ler mais sobre outras religiões, como o espiritismo, o budismo e o hinduísmo - mas eu enxerguei problemas em todas essas crenças a partir do momento em que eu acionava o meu ceticismo. Apesar de tudo, eu continuei acreditando num deus impessoal e em vida após a morte, mas sem seguir nenhuma religião.


A fase agnóstica
Quando eu tinha por volta dos 25 de idade, entrei para diversos fóruns, comunidades e espaços para debates na internet. E foram nesses debates online que o meu deísmo começou a ficar cada vez mais brando. Percebi que a ideia de um deus impessoal, na verdade, era fruto das minhas próprias dúvidas e abstrações. Foi então que me tornei um agnóstico, ou seja: eu adotei uma postura humilde de não ter como responder se existia um deus ou não.
Mais ou menos nessa época, conheci a história dos Deuses Astronautas de Erich von Däniken. Apesar das ideias dessa teoria dos antigos astronautas terem feito sentido no início, elas não me convenceram. Um ano depois, eu já havia a descartado como possibilidade de ser real, uma vez que ela fazia o apelo ao desconhecido como forma de impor o seu ponto de vista.


A fase cética
Dois anos depois, aos 27 anos, eu acabei entrando em contato com vários vlogueiros no Youtube que pensavam de forma muito similar à minha. As ideias desses vlogueiros unidas com as minhas me levaram à conclusão definitiva de que os deuses, deístas ou teístas, não podem ser reais, pois a existência deles é incompatível com as evidências do mundo real. E a possibilidade de existir vida após a morte também perdeu terreno - muito embora eu a considere teoricamente possível (comentarei sobre isso em outro post). A maior parte desses vlogueiros céticos que conheci no Youtube pertence à Tropa Lanterna Verde.

Hoje, já maduro e balzaquiano, eu poderia dizer que sou ateu e agnóstico, mas esse rótulo não se enquadra a mim. O máximo que eu poderia dizer é que eu estou ateu, porque, na verdade, eu sou uma metamorfose ambulante. Hoje posso estar ateu; amanhã, quem sabe, posso estar panteísta, pastafarianista, pandeísta...



"Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo...

...Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator"
(Metamorfose Ambulante - Raul Seixas)


É por isso que quando eu posto coisas sobre ateísmo no blog, eu procuro ser cauteloso para que os teístas não sofram o que eu sofri quando descobri que esse deus piedoso e reconfortante não existe. Pois existem pessoas cujo o significado da vida está atrelado à religião. Mas não posso deixar de postar fatos e ideias que mostram que o teísmo não passa de uma mitologia, uma vez que a realidade, por mais dura que ela seja, é sempre preferível a uma mentira. Além disso, existem coisas extraordinariamente belas escondidas nas entrelinhas da realidade.

Namastê!

10 comentários:

  1. Wellington,

    Segui um caminho parecido. Aos 11 anos eu seguia firme para uma vocação Marista; foi então que os muitos livros que eu lia (principalmente a bíblia), fizeram seu papel de água de mar, erodindo e reconfigurando as falésias da fé que eu considerava inabaláveis. Gradualmente.

    Diferentemente de voce não houve um único momento de ruptura; eu sempre substituia as idéias já formadas por outras, mesmo que incompletas; talvez por isso só me dei conta dela quando já estava muito distante da fé tradicional.

    Não creio que espiritualmente sejamos uma tábula rasa; acredito que a religiosidade esteja mais para um neuroreceptor específico do que para um construto humano. A prova disso é que qualquer pessoa questiona a transcendência da vida, mesmo sem contato com quaisquer doutrinas de fé.

    O ateísmo não me prendeu por muito tempo por ser basicamente uma antítese do teísmo, sem perspectiva de uma vida autônoma e independente.

    Por mais que tivesse perdido a fé em divindades ainda restava a questão da transcendência, e só quando me libertei por completo do ateísmo e do teísmo é que pude vislumbrar uma via original e pessoal, nova, e eternamente em construção.

    Resolvi que a religiosidade pode ser - na maior parte da vida - não um lugar confortável onde se alivia as dores do mundo, e sim uma arena onde posso opor - em luta - as questões filosóficas mais importantes da minha existência.

    Isso explica em grande parte a irritação que sinto quando abordado por alguém que traz todas as respostas em frases feitas, sacadas das páginas de um livro contraditório e de autoria duvidosa. Ainda nem descobri o que é a vida, e os caras já me chegam com o roteiro do post-mortem...arre!

    O que considero mais sagrado hoje é preservar minha religiosidade da sanha dos pastores de almas. Tanto faz se são honestos ou não, seu simples desejo de apoderar-se dela me faz perder completamente o respeito pelas suas crenças. E quanto mais insistem em argumentos pífios (superados por mim desde a adolescência) mais eu lhes digo, nas entrelinhas, o quanto são idiotas em perder tempo na conversão dos outros, tempo esse que poderia ser melhor utilizado nas suas próprias reflexões em vez de desperdiça-lo em conversões.

    O tema é vasto, e renderia infinitas laudas...rss

    Abraço.

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    1. eudyrj, penso que os seres humanos precisam mais de espiritualidade e menos de religiosidade. Aqueles costumes, rituais e regras peçonhentas das religiões são um veneno para a alma. Já a espiritualidade defende uma busca pelo significado e pelo autoconhecimento.

      É por isso que quanto menos religioso é um povo, mais desenvolvido ele tende a ser.

      Obrigado pela participação. Abraço.

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  2. Wellington,

    Exatamente essa luta pelo poder DA DEFINIÇÃO dos termos, já é uma forma de sacerdotismo.

    Pra que definir? A quem serve isso?

    Certamente não aos indivíduos pensantes de sua própria fé. Esses não se detém em termos.

    Abraço.

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    1. Eu acho que os rótulos servem mais para separar do que para unir, porém, eles se fazem necessários para evitarmos generalizações. Quanto aos conceitos, eles são sempre pessoais quando abordam questões humanas. Essa é a minha abordagem, que inclusive está sempre sujeita a modificações com o decorrer do tempo. Não existem verdades absolutas e nem conceitos imutáveis.

      Abraço.

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  3. Olá Wellington. Me permite dar um pitaco? O que acho a respeito das religiões, e é algo muito particular, é o seguinte:
    a) Não creio que haja um Deus punitivo e vingador. O que há é o reflexo do mal que o homem semeia com as próprias mãos.
    b) Todo fanatismo é perigoso. Há quem mate por amor, não é mesmo?
    c) Há alguns anos eu questionei a existência divina. Estava num período difícil. Depois que a má fase passou eu pensei comigo mesmo: eu fui o culpado por não ter me preparado para esse momento.
    d) Nunca acreditei, embora respeite opiniões contrárias, em religiões que pregam a riqueza monetária como um mal. Ora, se ela chegou até tuas mãos, é porque foi de teu merecimento e esforço. A generosidade em compartilhar é uma dádiva que não deve ser desprezada. E nem sempre ser rico é sinal de tranquilidade ou felicidade. Conheço pessoas ricas em constante conflito e preocupação com seus bens que até esquecem de viver.
    d) Sobre o escrito acima, quero acrescentar o seguinte: se limitar, se anular, se fechar para a vida é um defeito. As chances de servirmos o próximo, sermos ricos de felicidade e de bens é algo que só depende de nós mesmos.
    E que haja mais espiritualidade sobre nós. Por enquanto era isso.
    Abraço

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    1. Sabe, Janerson, eu penso de forma parecida com a sua. Creio que o grande risco é quando alguém passa a ter 100% de certeza sobre algo, levando-a ao fanatismo, independentemente de ser fanatismo ateu ou religioso. Eu não tenho 100% de certeza sobre a inexistência dos deuses, mas tenho razões muito fortes para não acreditar neles.

      Abraço.

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  4. Cara n sei o que dizer, é exatamente o mesmo caminho que segui, inclusive nas datas.

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    1. Pois é, que mundo pequeno, não? rs)

      Vlw. Abraço.

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