domingo, 4 de maio de 2014

Chega de fiu-fiu e os assédios nas ruas


magine que você esteja caminhando sozinho numa rua escura e pouco movimentada usando a camisa do seu time de futebol favorito. Subitamente, entram nessa mesma rua vários representantes da torcida organizada do time rival ao seu. Você segue adiante e eles começam a te encarar e a proferir ameaças e palavras ofensivas contra você (boneca, miss, bicha, viado, só para ficar nos mais leves) só por você estar com a camisa do time rival. O que você faz nessa hora? Como você se sente? Sua espinha não gela quando eles te olham em tom ameaçador num mundo onde torcedores são espancados até a morte só por causa do time que torcem? Sabe por que eu estou perguntando isso? Por que é exatamente essa sensação que muitas mulheres sentem ao receber cantadas agressivas, olhares maliciosos e investidas de homens estranhos. Além de ofensivas, muitas cantadas às vezes podem representar o medo de algo pior: o de um abuso sexual ou mesmo de um estupro. Imagine viver ouvindo grosserias e ameaças o tempo inteiro, todos os dias e em quase todos os lugares só por você ser mulher. Foi exatamente por isso que a campanha Chega de Fiu-Fiu estourou recentemente na internet e as discussões sobre o assédio sexual voltaram a ser discutidas.

Assédio não tem graça nenhuma

Chega de "Fiu-Fiu"
Desde julho de 2013, quando a campanha contra o assédio sexual nas ruas foi divulgada no site Think Olga, que eu quis opinar sobre o tema, mas preferi deixar para me manifestar posteriormente para dar uma opinião mais concisa e menos emocional. O fato foi que eu acabei ficando com preguiça e também tive outros temas importantes para dar prioridade no blog, o que acabou adiando o assunto até o presente momento.
A minha opinião sobre esse assunto já deve ter ficado clara na introdução deste post: eu apoio inteiramente a campanha Chega de Fiu Fiu porque ela trata de combater mais uma forma de violência contra as mulheres: o assédio. Sim, o assédio nas ruas é uma forma de violência contra a mulher, porque além de ser uma agressão, também interfere no direito de ir e vir. Todo mundo tem o direito de andar na rua sem ser atacado, molestado ou sofrer constrangimentos.
O post poderia terminar aqui, mas quem me conhece sabe que eu amo a prolixidade e adoro dissecar os temas para que tudo fique bem claro. Por isso, vou me aprofundar a seguir. E é bom que fique claro logo de início que essa postagem vai ficar gigantesca por abordar diversos pontos e por ter um FAQ (Frequently Asked Questions; Perguntas mais frequentes, em português) no final.


Pequeno glossário
Antes que algum ruminante venha fazer confusão com as palavras, vou listar abaixo os significados das expressões mais importantes que serão usadas neste texto. Esse microdicionário é necessário porque tem homem que acha que tudo é "elogio" e tem mulher que acha que tudo é "assédio". Por isso é necessário esclarecer as diferenças logo no início.

Abordar
v.t Apresentar-se a alguém para falar-lhe: abordar uma pessoa. Efetuar uma abordagem.

Assédio 
s.m. 1. Insistência, teimosia junto a alguém. 2. Importunar, maçar, molestar.

Assédio sexual
express. Conjunto de atos ou ditos com intenções sexuais, geralmente levado a cabo por alguém que se encontra em posição (hierárquica, social, .econômica, etc.) superior.
Nota: Assédio sexual é crime de acordo com a lei número 10224 de 15 de maio de 2001.

Cantada
s.f. 1. Sedução por palavras ou maneiras aliciantes. 2. Dito ou conversa que visa seduzir ou conquistar alguém.

Cumprimentar
v.t.d. v.int e v.pron. 1. Felicitar alguém e ser retribuído - apresentar felicitações a alguém: 'tenho de cumprimentar meu irmão pelo seu casamento'. 2. Dirigir cumprimentos a alguém: 'preciso cumprimentar minha mãe porque há tempos não a vejo'.

Elogio
s.m. Discurso expresso de maneira favorável em louvor de alguém: elogio acadêmico.

Flertar
v.t.i. e v.i. Cortejar alguém; namoricar ou paquerar; demonstrar interesse sentimental por alguém: 'ela passou muito tempo flertando, mas agora quer casar; ele já flertou muito e acabou sozinho'.
v.t.i. Demonstrar bajulação, cortesia, gentileza: 'embora fossem inimigos, nunca deixaram de flertar'. 

Paquerar
v.t.d. e v.i. Demonstrar interesse amoroso recíproco por alguém; observar alguém demonstrando interesse amoroso por esta pessoa; azarar: 'paquerou um menino na escola'; 'vive paquerando naquele parque'.

Pedir informação 
express. Solicitar a alguém alguma informação sobre lugares, pessoas ou serviços.

PS: As definições deste léxico foram retiradas do Dicionário Online de Português e do Priberam. Se não gostou delas, vai reclamar com eles, e não comigo.


Por que os homens dão cantadas?
Antes de começar a conversa, vamos citar algumas razões pelas quais os homens dão cantadas nas mulheres nas ruas:

- Porque são machistas.
- Porque são moleques.
- Porque acham normal.
- Porque tem fetiche (tara) nisso.
- Porque acham que as mulheres gostam.
- Porque acham que toda cantada é elogio.
- Para se mostrarem diante dos demais homens, reafirmando velhos valores machistas.
- Por acharem que uma mulher, só por ser atraente, tem que aguentar cantadas de todo mundo.
- Porque aprenderam que isso é "atitude de macho", afinal, para muitos, "homem de verdade" é aquele que aborda as mulheres como "macho".
- Por achar que a mulher, por estar sozinha, está "disponível".
- Por osmose, já que repetem essa atitude de outros homens que são "bem vistos" dentro do sistema.
- Por falta de educação e empatia (no caso de cantadas grosseiras e ameaçadoras).
- Pelo mito de que o homem é quem deve sempre chegar e abordar a mulher, e não o contrário.
- Por acharem que mulheres são objetos de uso público.
- Porque acreditam que os homens não conseguem se controlar, sexualmente falando.
- Por cinismo e para incomodar mesmo (por misoginia).
- Alguns dão 'tiro para todos os lados', achando que uma hora a "cantada" vai funcionar com alguém.
- Muito cara faz isso como vingança por sua frustração com as mulheres.

É isso que quase todas as mulheres têm que aguentar ouvir todos os dias.

Cantadas: quem precisa delas?
Eu, particularmente, acho que a cantada é o meio mais desastrado e ineficaz de se aproximar de uma mulher. Pense bem: mulheres bonitas e atraentes levam zilhões de cantadas todos os dias, são paqueradas o tempo todo e são avaliadas constantemente por sua beleza física. Se você canta uma mulher ou elogia a aparência dela, você está sendo apenas mais um. Mas se você buscar um diferencial e tentar se aproximar de forma amistosa, cordial, simpática, inteligente, educada e criativa, certamente vai ter mais chance de sucesso. E, pelamordedeus, chega desse negócio de "gostosa", "tesuda" ou "linda": a maioria das mulheres detesta isso, especialmente vindo de estranhos. Você que é homem, procure se aproximar civilizadamente, conversar um pouco e se notar que há reciprocidade de interesse, aí sim elogie aquilo que poucos homens prestam atenção: na inteligência, na personalidade, no caráter, na competência, na simpatia, no sorriso, na expressão corporal, até mesmo na voz. Pode até dizer que ela é atraente, mas de forma educada. Sem falar que o melhor elogio para qualquer pessoa é falar o nome dela. Se você conseguir chamar uma mulher pelo nome dela, garanto que vai ganhar muito mais atenção do que se a chamar de "gostosa" ou de "delícia". Eu garanto que se você mudar a sua postura e souber investir no seu próprio marketing pessoal, a mulher vai te enxergar de uma maneira diferente e você não vai ser mais um cara, você poderá ser o cara, morou? Não tenho tempo para criar um manual da paquera, mas se você, homem, tiver o mínimo de sensibilidade e boa vontade, certamente poderá deixar qualquer Don Juan no chinelo.
Então, camarada, se você não é um adolescente espinhento, aprenda a abordar uma mulher direito, com educação.

Aprenda a falar com uma mulher direito, ô mané!

Se não entende o problema, assista o vídeo abaixo, do Carlinhos, o machista gay e entenda porque é tão inconveniente ficar incomodando as pessoas na rua:



Por que o assédio é nocivo?
O assédio é perigoso porque cria um clima de terrorismo sexual. Num mundo onde mulheres são estupradas, violentadas e assediadas o tempo todo, é natural que muitas se assustem com uma cantada ou mesmo com um elogio vindo de um estranho. Afinal, ninguém tem escrito na testa se é um estuprador ou não. Isso, infelizmente, acaba colocando todo homem como potencial estuprador. O resultado disso é que muitas mulheres andam com medo, evitando usar certas roupas, evitando entrar em certas ruas ou mesmo evitando se aproximar de homens. Se você é homem e tem mania de assediar ou de dar cantadas, é melhor começar a mudar de postura para evitar queimar o filme de todos os outros homens. Se quer se aproximar, faça isso com muito cuidado e respeito, prestando atenção se há também interesse por parte da mulher. Não seja ogro e não estrague a possibilidade de ganhar uma amizade, um amor ou mesmo uma transa sem compromisso por pura estupidez. Aprenda a dar bom dia, a perguntar o nome e a ser gentil. Se ela não foi com a sua cara, aprenda a ouvir não e parta para outra. Tem outras milhões de mulheres interessantes no mundo que podem se interessar por você.
Um caso de assédio que chegou ao extremo foi o de uma garota que foi presa no Rio após ter sido chamada de "gostosa" por um PM. Se duvida, olhe o vídeo abaixo:



Se o assédio não parar, infelizmente, teremos que tomar medidas segregativas – como o vagão de metrô exclusivo para mulheres – para evitar que as mulheres sejam atacadas por homens. Devemos ensinar os homens a respeitarem ao invés de ensinarmos as mulheres a não serem assediadas.

Vagão exclusivamente feminino: é isso que vocês querem?

Desculpas para o assédio
Quando o aplicativo Lulu saiu para o Facebook (aplicativo este em que os homens eram avaliados anonimamente pelas mulheres), houve um alvoroço danado por parte da ala masculina. Imagine então receber avaliações bem mais pesadas que a do Lulu publicamente, todos os dias e da forma mais pejorativa, ofensiva e ameaçadora possível dentro de uma cultura onde o estupro é algo tão corriqueiro que em muitos casos sequer é considerado crime. E se você acha que eu estou exagerando, pergunte a sua amiga, a sua irmã ou mesmo para a sua mãe se essas coisas não acontecem.
Entre as desculpas mais aceitas socialmente para o assédio e para as cantadas ofensivas estão:
1- Porque o homem é homem, e homens não conseguem se controlar.
2- A culpa é da mulher pela roupa que ela estava usando.

Assédio é crime
Os dois itens acima mostram o quão podre é a sociedade que aceita tais argumentações como justificativas para o assédio. Se os homens não conseguem se controlar, então um gay tem todo o direito também de estuprar e abusar outros homens na rua, já que um gay masculino também é homem e tem os mesmos hormônios de um homem hétero: o que o coloca igualmente nessa condição de "incontrolável". Mas isso não acontece exatamente porque os homens podem se controlar. E note que uma mulher acompanhada por um homem não recebe cantada, por mais bonita que seja: o que também destrói o mito de que homens não podem controlar os seus impropérios. Sei que somos animais e temos instintos também, certo, mas o nosso córtex frontal do cérebro responsável pelo nosso juízo crítico serve para quê? Por acaso temos também o direito de roubar comida por aí por não conseguirmos controlar a nossa gula?
Sobre a questão da roupa que a mulher usa, então por que o índice de estupros em tribos de índios que andam nus é tão baixo? E em praias de nudismo? Será que pelo fato de andarem sem roupa torna as mulheres alvo constante de assédios? E será que em países onde as mulheres usam burca evita-se mesmo o assédio e o estupro? Na minha opinião, essas desculpas são desculpas de criminosos e psicopatas. Quer sexo? Então pague uma garota de programa, arrume uma companheira ou vai passear lá no Redtube.

Isso é a melhor coisa que o assédio vai te render

Por que é tão difícil combater esse problema?
Lutar contra o assédio sexual nas ruas é remar contra a correnteza de uma cultura que tratou a mulher como um ser inferior durante boa parte de sua história. Quantas e quantas pessoas (principalmente homens) ridicularizaram ou desprezam as mulheres que passam por esse constrangimento mesmo quando sites como o Olga escancaram o sofrimento feminino? Infelizmente, o machismo ainda está muito enraizado na nossa cultura e extirpá-lo totalmente pode levar muito tempo, porque as pessoas se acostumaram a achá-lo tolerável ou mesmo correto. Por isso mesmo que ser feminista é um ato de coragem e exige muita luta.

É assim que tem que ser

Olha aí o que eu falei...
Outro grande problema, e talvez o maior deles, é que os homens costumam ter dificuldade em se colocar no lugar das mulheres nessa hora. Isso ocorre porque a Regra de Ouro (ou Ética da Reciprocidade) não funciona direito nesse caso, pois quando os homens se colocam no lugar das mulheres, eles se veem como homens – e não como mulheres. Na cabeça de muitos homens, levar uma cantada grosseira é legal, porque muitos sonham em levar exatamente esse tipo de cantada das mulheres. Prostitutas arrumam clientes justamente dando tais cantadas-assédio nos potenciais clientes como forma de atraí-los para um programa. Além disso, para muitos homens que cantam, as mulheres heterossexuais têm que gostar da cantada só porque ela partiu de alguém do sexo que as atrai. Fora, claro, a negligência de levar em consideração o medo de ser estuprada. Por tudo isso que filmes com inversão de valores, como o Maioria Oprimida, de Eléonore Pourriat, não costumam fazer qualquer sentido para a maioria dos homens.
Para entender melhor isso, vou copiar as palavras do blogueiro Alex Castro do site PapodeHomem onde ele resume neste artigo o porquê dos homens se colocarem no lugar das mulheres não resolve neste caso:

"Poucos conselhos são mais perversos e canalhas do que o popular 'trate as outras pessoas como gostaria de ser tratada'.
Não é verdade. Sabe por quê? Porque a outra pessoa é uma outra pessoa. Porque ela teve outra vida, outras experiências. Porque ela tem outros traumas, outras necessidades. Basicamente, porque ela não é você; porque você não é, nem nunca vai ser, nem deve ser, a medida das coisas.
Se você se usa como parâmetro para qualquer coisa, talvez devesse pensar duas vezes. A outra pessoa deve ser tratada não como VOCÊ gostaria de ser tratada, mas como ELA merece e precisa ser tratada."

e tem mais:

"Mas você não é mulher, entende? As mulheres ganham menos, sofrem mais violência doméstica, são estupradas, morrem em abortos clandestinos – todos fenômenos com métricas facilmente encontráveis. A discussão tem que dar através desses números. As coisas que você-homem faria ou sentiria se estivesse no lugar delas são irrelevantes, pois você não está e nem nunca estará no lugar delas."

Não é novidade para ninguém que a cultura machista coloca a mulher como inferior e ainda faz pouco caso de todas essas coisas que magoam e assustam as mulheres. Foi por isso que iniciei o post com o exemplo do torcedor, pois ele é o que mais se aproxima do medo que muitas mulheres têm ao serem assediadas nas ruas. Por isso, eu peço encarecidamente aos meus congêneres: por favor tenham todo cuidado do mundo ao abordar uma mulher desconhecida na rua. Muitas mulheres já ficam na defensiva ao serem abordadas porque não está escrito na sua testa se você é um homem de caráter ou se é um maníaco, tarado ou estuprador. Nunca digam algo a uma desconhecida que você não diria na frente dos seus pais ou para a sua chefe. Tenha sempre respeito ao abordar as pessoas, especialmente as mulheres.

Olha a que ponto nós chegamos

Como resolver esse problema?
Vou tentar resumir esse item em três pontos:
Primeiro: Deve-se lembrar que as mulheres não são propriedade pública: elas são seres humanos com sentimentos, com emoções, com preocupações, com receios e com variações de humor igual a mim, a você e a todo mundo.  
Segundo: Deve-se aprender de uma vez por todas que o seu direito termina onde começa o do outro. Fazer terrorismo sexual através de assédios e cantadas agressivas fere o direito de ir e vir das pessoas. Quantas e quantas vezes inúmeras mulheres precisaram mudar o trajeto para não sofrerem assédios ou precisaram mudar de roupa para não escutarem gracinhas?  E aprendam uma coisa: respeitar uma mulher não é uma caridade: é uma obrigação.
Terceiro: Homens precisam aprender a ouvir NÂO e a ter limites. Se uma mulher não foi com a sua cara, deixe-a em paz. Será que você nunca parou para pensar que o problema pode estar em você e não nas mulheres?


Quanto às formas de resolver os assédios nas ruas, eu sugiro algumas coisas como:
- Educar os meninos desde cedo para respeitarem as mulheres e que sejam educados ao abordá-las.
- Conscientizar os homens (e algumas mulheres) como esse tipo de abordagem é ruim, desagradável e ineficaz.
- Provocar uma mudança de pensamento que acabe com o machismo (difundir o feminismo é uma boa forma).
- Prestar atenção se há reciprocidade e interesse por parte da garota antes de dar qualquer cantada.
- Nunca diga algo para uma garota que você não gostaria que dissessem para a sua mãe.
- Criar leis e medidas que punam quem assediar mulheres nas ruas.
- No caso das mulheres, reagir reprovando a atitude do assediador.

Ainda não aprendeu a lição, amigão?

Cuidado com os exageros
A campanha do Think Olga é contra o assédio sexual, ponto. O Olga NÂO é contra dar bom dia, cumprimentar, flertar, elogiar, pedir informação, paquerar de forma saudável (com reciprocidade), trocar olhares ou olhar de forma natural para as pessoas. Querer proibir formas saudáveis de interação entre homens e mulheres é fanático e heterofóbico. Esses exageros, apesar de serem compreensíveis, não ajudam em nada. Isso pode parecer até uma bobagem, mas vi muitas mulheres confundindo até bom dia com uma cantada, então, vamos ter coerência.
E nem toda cantada é assédio, como coloquei no glossário lá em cima. Algumas cantadas mais inocentes, engraçadinhas, inteligentes e ditas em locais e em momentos apropriados podem ser bem vindas. O que todo mundo deveria evitar é intimidar a pessoa ou dizer algo constrangedor, o que de fato constitui o assédio. Enfim, eu acredito que uma boa conversa ainda é melhor que qualquer cantada.

Respeito demais nunca é de menos

FAQ
Para concluir esse assunto, vou responder algumas perguntas feitas frequentemente sobre este tema:

-O que tem demais em dar uma "cantadinha"?
O problema é que muitos homens são folgados demais neste aspecto e acham que ser inconveniente, grosso, mal educado, bruto, invasivo e inconveniente é sexy ou viril. Ninguém te dá liberdade para ser estúpido ou sair falando obscenidades para pessoas que você nunca viu. Tem homem que não sabe nem dar bom dia ou pedir 'com licença' a uma mulher, já se aproximam dizendo grosserias.

-Por que esse mimimi todo? Mulher não gosta de se sentir desejada?
Vivemos numa sociedade que minimiza e ignora o sofrimento feminino. Daí que quando uma mulher reage ou protesta contra os abusos, é taxada de mal amada, mal comida, louca, sapatão, etc. Sempre foi assim. As queixas das mulheres SEMPRE devem ser ouvidas e atendidas. Se quremos ter direitos iguais, todo mundo precisa ser respeitado. E sim: a mulher gosta de se sentir desejada, mas pelo homem (ou pelos homens) que ela gosta.

-Como saber a diferença entre elogio e assédio?
Muitas pessoas questionam sobre um suposto limite entre um elogio e o assédio, dizendo que, neste ponto, a discussão se é ou não algo ruim é muito relativo. Eu discordo, porque mesmo o elogio, quando vindo do nada e feito por um estranho, pode assustar ao invés de encantar. A dica que eu dou é procurar conversar educadamente com a pessoa que te interessa antes de tentar algum elogio – e evitar se aproximar em locais inadequados, como em locais desertos, por exemplo. Esse negócio de olhar e já dizer "Uau, que linda!" é um negócio meio de bobo-alegre.

-Antigamente, as pessoas agradeciam quando recebiam um elogio, hoje elas chamam a polícia...
Antigamente, as mulheres tinham medo de reagir e também não tinha a internet para que elas tivessem voz ativa e democrática.

-As feministas querem proibir os homens de olharem para as mulheres.
Certa vez, o meu falecido mestre, o psiquiatra José Ângelo Gaiarsa, disse que o problema não está no olhar, mas sim na cara com que se olha. A expressão "Indecente é a cara", do dramaturgo Neslon Rodrigues, traduz bem essa ideia. Se você olha para um mulher normalmente, com discrição ou até mesmo com simpatia, não há problema algum. Mas olhar com cara de tarado como se estivesse comendo a pessoa com os olhos ou como se nunca tivesse visto uma mulher na vida, bem, neste caso, dá a impressão que estamos diante de um tarado ou de mais um bobo-alegre. Se quer olhar, olhe como se estivesse olhando para uma pessoa, e não para um pedaço de carne suculento que você precisa se controlar para não beliscar. Ser olhado dessa maneira é desconfortável.

-As feministas querem proibir os homens de sentirem desejo pelas mulheres.
Não. Se uma feminista faz isso, ela não é feminista: ela é doida mesmo. Querer fazer sexo é natural, desejar é natural, ficar excitado é natural, mas assediar é desrespeitoso. O assédio é o problema, e não o desejo sexual.

-As feministas querem acabar com a paquera.
Não, isso é uma falácia do espantalho. Querer acabar com a paquera seria uma forma bizarra de heterofobia. Apesar de existirem feministas doidas por aí que odeiam tudo que têm pênis, o foco da campanha não é contra a paquera, mas, sim, contra o assédio. Relações humanas naturais não tem nada a ver com agressão verbal.

-Se fosse o Brad Pitt ou o Johnny Depp, duvido que reclamariam de assédio.
Isso seria tão idiota quanto dizer que uma mulher não acharia estupro se ela fosse estuprada por um homem "bonito". Quando as mulheres reclamam do assédio, automaticamente elas estão reclamando de qualquer assédio, independente da suposta beleza do agressor. Além disso, você acha mesmo que o Brad Pitt ou o Johnny Depp precisam assediar para chegar em alguém? Um homem atraente não precisa se rebaixar para se aproximar de uma mulher, afinal, um assédio significa zerar qualquer chance de conquista com a mulher.

-Não posso mais nem dizer que uma mulher é 'linda'?
Claro que pode, mas não em um espaço público e de maneira indiscreta para alguém que você mal viu. Da mesma forma que você não deve chamar um deficiente de deficiente publicamente, evite avaliar as pessoas por sua beleza da mesma maneira. Falando nisso, você gostaria de ser chamado de "gostoso" na rua por algum gay? Será que ser humilhado por outro homem na rua não te causa nenhuma repulsa? Pois é. Se você achou uma pessoa linda a ponto de se aproximar dela para conversar, o próprio ato de se aproximar dela puxando conversa já mostra que ela te chamou atenção por ser bonita. Não precisa ficar elogiando coisas óbvias e muito menos em situações e locais inadequados como no meio de uma rua deserta à noite.

-Ser chamada de gostosa não é ofensa, é elogio.
Se você leu até aqui e teve coragem de dizer isso, pode ter certeza que você, além de estúpido, é um analfabeto funcional. Isso me lembra daquele ditado: "Não aceite críticas de quem não conhece a sua luta".

-Vocês que são contra as cantadas são um bando de moralistas.
Eu sempre achei o moralismo uma merda. Mas, infelizmente, não podemos viver sem ele. Um pouco de moralismo é bom justamente para evitar desrespeitos, atentados ao pudor e invasões de privacidade. Na verdade, o que está sendo discutido aqui não é o moralismo, mas sim o respeito. Afinal, respeito deveria ser uma obrigação, e não um privilégio masculino.

-É proibido dar cantada nas pessoas?
Não, mas isso vai depender do local e das circunstâncias. Se você está numa boate, onde as pessoas normalmente vão para arrumar companhia, deve-se estar mais aberto a isso. Mas na rua é algo que normalmente causa mais repulsa do que interesse. No caso de boates, há o problema dos homens não saberem ouvir um não. Parem com essa história de que "não é sim". Não quer dizer NÃO!

-Tem mulher que também dá cantadas, algumas até bastante agressivas...
Você, homem, tem medo de ser estuprado por uma mulher? Tem medo de ficar "mal falado" por ter transado com uma desconhecida? Tem medo de ser atacado por uma mulher numa rua escura? Se não, então as coisas funcionam diferente para você. Os homens não têm medo de cantadas nas ruas vinda de mulheres porque não correm riscos e aprenderam a achar isso bom. Mas se for para levar uma cantada de outro homem, será que isso não incomodaria? No caso das mulheres, eu, particularmente, acho deselegante que elas deem cantadas boçais. Acho que elas não precisam disso, porque isso fomenta também mais cantadas desse tipo vinda por parte dos homens.

-Cala a boca, seu mangina! Seja homem e valorize o que você tem entre as pernas!
Se a sua reação ao terminar de ler este post foi essa, então é sinal de que eu estou realmente fazendo a coisa certa. Como disse uma vez uma moça aqui na internet: "Na boa, pra mim um homem chamado de mangina pelos mascus já passou atestado de qualidade. Eu pego." Rarará! E depois o filósofo Luiz Felipe Pondé não entende porque ser de direita é ruim para pegar mulher. Ô, coitado!

5 comentários:

  1. Gostei muito do seu post. Gostaria que me tirasse algumas dúvidas se possível.
    Partindo de uma perspectiva ética, assediar uma pessoa é errado e desrespeitoso, interfere negativamente na dimensão individual dela. Eu concordo com a maior parte do texto, mas me restaram dúvidas sobre a questão do momento adequado de abordagem. É bom que recordar que: uma abordagem não deve ser agressiva, mas respeitosa e amistosa. E claro, deve-se obrigatoriamente aceitar a decisão da pessoa de querer ou não envolver-se com você, seja das mais diversas maneiras. Minha dúvida é: qual é o limite da abordagem e do olhar?

    "Se você está numa boate, onde as pessoas normalmente vão para arrumar companhia, deve-se estar mais aberto a isso." Lembrando sempre: as abordagem jamais devem ter uma natureza agressiva e ditatorial. Mas, onde reside o limite dela? Por exemplo: olhares. Olhar para uma pessoa incessantemente é CRIME, caracterizado de bisbilhotagem, viola o direito de privacidade. E creio que deveria existir algo que criminalizasse olhares bisbilhoteiros complementados por assédio. Mas, olhar, admirar a beleza que um enxerga, também é assédio? "Se quer olhar, olhe como se estivesse olhando para uma pessoa, e não para um pedaço de carne suculento que você precisa se controlar para não beliscar." Isso significa que caso se olhe (olhar, não BISBILHOTAR) focando em uma parte que desperte desejos sexuais, tal olhar pode ser classificado de objetificador? Mas ter desejo sexuais por uma pessoa é trata-la como pedaço de carne? Mais uma vez: olhar não é BISBILHOTAR. Por exemplo, se alguém olha para outra pessoa e admira seus atributos físicos, mas não bisbilhota ou emite palavras de cunho sexual, não há nada de errado, ou há?
    E por exemplo, em festas agitadas onde as pessoas não costumam passar por estágios conversativos para estabelecerem relações com outras, seria assédio abordar alguém de maneira direita e precisa, especificando seu desejo? Por exemplo: seria assédio alguém abordar uma pessoa perguntando-a se ela quer beijar ou fazer sexo com o abordador? Lembrando: a abordagem JAMAIS deve ser agressiva, invasiva ou desrespeitosa, mas amistosa e lúcida, sempre respeitando a opção do (a) abordado (a).
    Gostaria de elucidar que: não é interessante buscar certas relações sexuais a partir de um modelo de abordagem direito e objetivo na rua, visto que o local é bastante aleatório e muitas das circunstâncias não são apropriadas para isso. Mais uma vez lembrar que: abordar direta e objetivamente não quer dizer abordar invasiva e agressivamente.


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    1. Olá!

      O que vou lhe dizer é apenas a minha opinião, não é uma regra. Eu acho que o limite do olhar varia dependendo da pessoa e das circunstâncias, e o que limita isso costuma ser o desconforto da pessoa que é olhada. Se a pessoa se mostra incomodada com certos olhares, devemos evitá-los. Eu, particularmente, não vejo sentido em ficar olhando insistentemente quando a outra pessoa não corresponde ou quando se mostra desconfortável com isso. Mas, no geral, olhar não tira pedaço quando é um olhar natural, apenas para admirar a beleza. Acho que se ofender com qualquer olhar também já exagero. Na dúvida, use óculos escuros.

      O limite da abordagem também é difícil de se definir porque ele varia muito de pessoa para pessoa. O ideal é ter sempre o máximo de tato e educação possível para evitar mal entendidos ou constrangimentos. Quanto a alguém abordar uma pessoa perguntando-a se ela quer beijar ou fazer sexo com o abordador, isso também é difícil de definir, porque depende do ambiente e das pessoas. Não acho que isso deveria ser ofensivo, mas como o sexo é um tabu e como as mulheres geralmente são criadas para se "valorizarem" (e tem medo de serem julgadas), chegar de cara perguntando se quer transar pode ser bastante intimidador ou constrangedor, mesmo que a mulher abordada também deseje transar.

      Eu assisti o vídeo linkado no comentário abaixo e ele mostra claramente que mesmo que o interesse em transar seja óbvio e recíproco, temos que respeitar as "regras" do jogo da conquista, que segue algumas etapas. A reação do copo de água na cara do rapaz talvez tenha sido pela mulher ter se sentido uma "prostituta", algo que é ofensivo para muitas. Outras podem ter achado a abordagem tão incomum que talvez tenham pensado ser uma brincadeira ou mesmo medo de ser um maníaco. Não achei a abordagem dele agressiva, mas como já diz aquele meme de Facebook: "você está fazendo isso errado!". rs

      Obrigado pela participação.

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  2. Por favor, eu imploro que você assista a esse experimento social até os 1:12. http://www.youtube.com/watch?v=gxyySRgrYsU

    Esse americano saiu perguntando a 100 mulheres se elas queriam sexo com ele. Você pode notar, caso assista ao vídeo, que ele não as aborda invasivamente e tampouco emite palavras que possam soar estranhas e desrespeitosas. Ele busca perguntar de maneira específica, séria e direta. Caso discorde, por favor, diga-me o motivo, pois pode ser que eu não tenha percebido certas coisas.
    Mas ainda assim, a mulher jogou um copo na cara dele somente porque ele perguntou se ela queria fazer SEXO (interação natural e benéfica para o ser-humano casa haja CONSENTIMENTO). É justificável isso? Lembrando: ele não tocou nela, não a agrediu e tampouco foi ameaçador. Não creio que oferecer sexo seja desrespeitoso. Ressaltando: a questão NÃO é se ela aceitou ou não. Ela pode não aceitar á vontade, é opção e direito DELA e o abordador tem a OBRIGAÇÃO e o DEVER de respeita-la. Mas, a questão é: o NÃO já é suficiente, correto? É necessário jogar um copo no rosto da pessoa por isso? E a pergunta geral: você acha esse tipo de abordagem agressiva só porque ela é mais direta? Perguntar se um quer ou não sexo é desrespeitoso? Acho o vídeo importante, pois ele deixa minha dúvida mais clara. No entanto, eu só gostaria de extrair e deixar fora de caso um fato: o de que ele as abordou na rua, local não tão apropriado. Mas, por um momento, esqueçamos isso e nos concentremos somente na FORMA que ele abordou as pessoas.
    Grande beijo e espero que essas dúvidas não te incomodem ou pareçam grosseiras. Espero que tenha entendio que minha dúvida não é em relação ao quão desrespeitoso o assédio pode ser, mas até onde uma coisa pode ser considerada assédio.
    Beijos e abraços fraternais.

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  3. Hahaha...Deveras engraçado como o público masculino insiste em defender as cantadas quando sentem-se tão ou mais constrangidos quando abordados desta forma. Palavras de quem cultuou a beleza masculina como um grego e não deixou passar despercebido um jovem Adônis andando sozinho.

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  4. ....um artigo de caráter lésbico feninazi! Gostaria de saber o q seria das mulheres héteros se nenhuma homem mais olhasse pra eles, não chegasse nelas num barzinho ou boate e nem em condições nenhuma...! Gostaria de viver pra ver isso...

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