quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Legalização do Aborto - Adendo


Quando eu escrevi o post sobre a Legalização do Aborto, eu tinha plena consciência que estava andando num terreno minado, onde as pessoas normalmente se exaltam por se tratar de um assunto bastante polêmico. Quero deixar claro que em momento algum eu disse que o aborto era bonito, que o aborto era correto ou que o aborto era a melhor forma de evitar filhos. O que eu fiz questão de mostrar naquele post foi a minha opinião pessoal sobre o tema. Eu não sou contra e nem a favor do aborto: eu sou a favor de haver uma legislação que respeite os valores individuais divergentes das pessoas. Ou seja: eu sou a favor do direito de cada mulher ter autonomia sobre o seu próprio corpo sem valores morais de terceiros para coibi-las.
Se alguém não concorda com o aborto, não o faça: é um direito seu ser contra. Mas não é porque você não concorda, que você tem o direito de proibir a escolha daqueles que discordam de você. Se opor a isso é querer impor uma ditadura baseada em seus valores morais individuais, o que é antiético e antidemocrático.
Nesse aspecto da moral individual, muitas pessoas dizem que se a moral é individual e cada um pode fazer o que quer, então eu poderia sair por matando as pessoas na rua e ninguém iria me prender porque a minha moral, por exemplo, diz que matar é certo. E isso realmente acontece, veja o caso dos terroristas radicais islâmicos, por exemplo: eles acreditam que matar os inimigos é moralmente correto. É por isso que existe a ética, para que a lei regule essas morais conflitantes e use a ética da reciprocidade para resolver esses conflitos.

Destino comum de uma criança não desejada

Sobre a questão social
É bom que se diga que o aborto é violento, é invasivo, é traumatizante e é uma decisão extremamente difícil para mulher. Nenhuma mulher vai preferir ir para uma mesa de cirurgia fazer um aborto cada vez que tiver uma relação sexual. O aborto é sempre o último recurso.
Se o Estado e as instituições religiosas se comprometessem a cuidar das crianças indesejadas ou que foram concebidas em estupros, eu estaria de acordo com a proibição do aborto. Mas ter mais crianças na miséria, abandonadas e figurando nas estatísticas de mortalidade infantil é que não pode ser tolerado. Das duas, uma: ou o Estado se compromete a criar, cuidar e educar as crianças que seriam abortadas; ou deve regulamentar o aborto.

Optar em interromper a gravidez é uma decisão que precisa ser consciente

O lado tenebroso do aborto 
Independentemente do aborto ser legalizado ou não, a mulher que vai abortar precisa ter consciência do que significa o aborto e do que acontece dentro do seu útero. O aborto é violento, é brutal, é monstruoso e é a interrupção de uma vida humana que iria se formar. Não vou colocar aqui imagens de abortos porque é desnecessário, chocante e um apelo inútil à emoção. Mas o que uma pessoa que decidir pelo aborto deve saber é que o filho dela vai morrer. Essas mulheres precisam entender que o seu filho vai tentar lutar pela vida mesmo dentro útero para tentar não ser abortado. Tendo consciência da violência que o aborto representa é que a mulher poderá recorrer à prática se ela assim quiser.
A questão que todos devem olhar é que abortos acontecem todos os dias, seja ele legal ou ilegal. Isso é um fato. E quem faz o aborto ilegalmente terá de realizá-lo em clínicas clandestinas de péssima qualidade, com profissionais despreparados, sem condições de higiene e sem apoio psicológico. E a mulher que aborta ainda é excomungada pela igreja, tratada como uma bandida e ainda precisa suportar todo o trauma de ter feito um aborto.
As mulheres ricas que querem abortar nem precisam passar por isso, basta viajarem para um país onde o aborto é permitido e lá mesmo poderão realizá-lo sem problemas. Mas as mulheres pobres e que não podem viajar é que acabam morrendo e ficando com sequelas graves. É por isso que eu sou a favor do direito de escolha da mulher.

A saúde da mulher em primeiro lugar

Conclusão
Concordo que em um mundo ideal as mulheres não abortariam, num mundo ideal não haveria estupros, num mundo ideal ninguém usaria drogas: mas nós não vivemos num mundo ideal. Não podemos fechar os olhos para a dura e cruel realidade que o aborto acontece, seja ele proibido ou não.

A melhor medida ainda é a prevenção. Os métodos contraceptivos, a educação sexual e o planejamento familiar ainda são as melhores medidas. Na minha opinião, as mulheres não deveriam abortar, mas se isso se fizer necessário, elas devem ter assistência médica adequada para isso.

O aborto é feio, lamentável e indesejável, mas o que eu estou colocando como centro desse debate é a questão da saúde pública. Se o aborto puder ser evitado, ótimo, mas se houver a necessidade de realizá-lo, que pelo menos as mulheres não corram o risco de morte e de terem a sua saúde e as suas vidas destruídas por isso.

Post anterior:
Legalização do Aborto
 
Ligações externas:
Bule Voador - aborto: saúde pública
Liberdade das Mulheres sobre os seus corpos
Diga NÃO ao aborto clandestino

8 comentários:

  1. Olá!
    Gostei do desfecho! Embora eu seja contra a legalização! Mas, concordo que a discussão é muito válida!
    Abraço forte e que seu dia seja supimpa!

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    1. Acho que as pessoas precisam parar para pensar sobre o tema. Independente de qual seja o posicionamento de alguém sobre o assunto, é preciso ter consciência do que o aborto representa e fazer uma análise dos prós e contras para a saúde da mulher e para a sociedade.
      Abração.

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  2. Olá Wellington!
    Essa questão do aborto é muito complicada, é uma questão onde se gera muita discussão, muito barulho pra chegar a lugar nenhum....rs
    Em minha opinião quando tratamos desse assunto "Aborto" a impressão que fica é que esse problema é somente da mulher.
    O homem também tem sua parcela de culpa.
    Se fizessem uma pesquisa e perguntassem as mulheres que fizeram aborto pq o fizeram tenho certeza que a grande a maioria responderia pq o pai não quis assumir.
    Em um momento tão importante da vida de uma mulher como esse onde ela precisa de todo apoio o parceiro, amigo, ficante, namorado, lhe dá as costas e como se não bastasse muitas vezes até seus familiares fazem o mesmo o que acontece muito no caso das adolescentes.
    A responsabilidade de ter um ser, uma vida em suas mãos é muito grande ainda mais para uma mulher sozinha.
    Minha irmã é a favor do aborto ela disse que se for para vir para o mundo sofrer essa é a melhor solução.
    Essas pessoas que criticam e discriminam não sabem o motivo que levam as mulheres a tomarem essa decisão.
    Sabe-se que nos países onde o aborto é legalizado ele acontece bem menos, nos países onde não é legalizado acontecem mutilações, mortes e etc...
    O certo é que o Aborto sendo considerado crime ou não ele continuará sendo praticado.
    Talvez legalizar seja a solução!

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  3. Olha que texto interessante escrito por uma médica.

    Aborto: crime contra quem?

    O aborto no Brasil é considerado crime, exceto em casos de estupro ou risco de vida à mulher.

    O fato de ser considerado crime não desestimula a mulher a se submeter a essa prática. Anualmente, estima-se a realização de mais de um milhão de abortos no País, realizados em condições inseguras e humilhantes para a mulher, com consequências de graves danos à saúde e até mesmo a morte.

    As mulheres que mais sofrem com esse problema são as mais pobres e as afro- descendentes, portanto, um problema também de justiça social e de direitos humanos.

    Eu me lembro da época em que estava de plantão no pronto-socorro de um hospital público, e que quando chegava alguma paciente com sangramento, indicando abortamento incompleto, percebia a discriminação que ela sofria por parte de toda a equipe de saúde. Ouvia-se comentários do tipo: para ficar grávida não pensou, só gozou, agora vem chorar!; e essa paciente era humilhada, aguardava calada durante horas para ser atendida, muitas vezes, sendo feita a curetagem sem anestesia, e ouvindo toda a sorte de repreensões.

    Além disso, mesmo quando a paciente registra um Boletim de Ocorrência e consegue uma ordem judicial para a prática do aborto, o médico pode se recusar a cumprir por razões pessoais. Começa então uma verdadeira peregrinação à procura de um médico que atenda essa paciente.

    O que acontece na realidade são os abortamentos provocados através de quedas, introdução de objetos no útero (agulhas, arames, cabides) ou de substâncias cáusticas, em ambientes inadequados.

    O problema é grave e complexo e não se resume à esfera penal ou religiosa, e sim à questão social, cultural, econômica, política, de saúde e direitos da mulher.

    Eunice Higuchi - Médica

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  4. Respostas
    1. Perfeito, Andresa!
      O homem tem realmente uma grande parcela de culpa nisso! E quem paga o pato, como sempre, é a mulher. É um absurdo criminalizar as mulheres que passam por essa experiência.
      E esse texto da médica que você citou deveria ser lido por todos para que as pessoas tenham consciência que o aborto é uma questão de saúde pública!
      Brigadão pelos comentários!
      Bjs!

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  5. Magnífico post!! Infelizmente as pessoas só aceitam entender aquilo que realmente seja conveniente a elas... se são contra, dificilmente vão respeitar ou aceitar uma opinião que seja o oposto do que elas pregam.

    Sou a favor!

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    1. Sabe, Pri, um dos maiores problemas é justamente essa visão estreita de mundo que muitas pessoas têm. Usar os próprios valores morais para decidir o que cada um pode ou não fazer é uma ditadura. A decisão pelo aborto cabe única e exclusivamente à mulher. O estado não deve interferir nessa decisão.

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